Paulo Navarro | Entrevista com Fernando Pacheco


Entrevista com Fernando Pacheco.  Foto: Nina Pacheco

O Marido da Cor

Hoje viemos confundir e não explicar, porque nosso entrevistado é o abissal inca venusiano, o astronauta do céu com diamantes, argonauta dos Sete Mares, lunático e nefelibata, ou seja, o marido e súdito da Nina, por quem ele roubaria os anéis de Saturno: Fernando Pacheco que, além de tudo isso é pintor, artista plástico e papelão, gente fina e sangue bom. Sangue de Minas. Como a gaúcha Adriana Calcanhoto, Fernando Pacheco, sotto la Luna, sem seu dark side, anda pelo mundo prestando atenção em cores que ele não sabe o nome, cores de Almodóvar, cores de Frida Kahlo. Como o cearense Belchior ele é apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco, mas cheio de PIX, suplicando: “por favor, não saque a arma no saloon, eu sou apenas o cantor”. Mas como o francês François Truffaut, ele implora: “atire no pianista” porque o filme é em preto e branco, noir. Pacheco gosta mesmo é dos 50 tons de cinza do arco-íris de Andrzej Wajda, Federico Fellini, Vittorio De Sica, Robert Wiene ou Fritz Lang; Akira Kurosawa, Pier Paolo Pasolini, Ingmar Bergman, Luis Buñel, Glauber Rocha e Humberto Mauro. Cores de Música, de Cinema, de sinos marginais banhados em ribeirão, de torres e cemitérios dos papéis cadáveres, dos homens e seus velórios, quando olhava da janela lateral do quarto de dormir em São João del-Rei. Assim, enquanto ele não chega ao País das Maravilhas, em “segredo”, vai cantando uma pequena serenata diurna: “soy feliz, soy un hombre feliz, y quiero que me perdonen por este dia, los muertos de mi felicidad”. Só nos esquecemos de perguntar qual drogaria Fernando frequenta, a Araujo ou a Pacheco. 

Fernando, quase todo mundo te conhece, mas para quem chegou, ontem à tarde, de Vênus, quem é Fernando Pacheco?

Bom, para aqueles que chegaram de Vênus, não preciso me apresentar. Já me conhecem, pois é prá lá que vou regularmente, alem do maravilhoso Mundo da Lua. Para os daqui da Terra, diria, parafraseando o saudoso amigo Belchior, “eu sou apenas um pintor, latino-atleticano, com meu PIX em dia, amigos bastante queridos; e nascido de um ato de amor”.

Você está escondendo ouro em burca!

Verdade. Também sou conhecido como o marido da Nina, companheira há 45 anos e diretora das ações do atelier. Meu pincel; minha paleta, musa, inspiração, meu Norte. Razão da emoção.

Há quantos anos você pinta as boas coisas da vida?

As boas coisas da vida, eu tento pintar há 77 anos, desde 1949. Já as coisas fundamentais da vida, os quadros/arte, eu pinto há 55 anos, desde 1971.

De onde vem teu bom humor e alegria constantes? 

Penso que veio no pacote, como dizem. Que deixemos o “The dark (other) side of the moon” para o Pink Floyd ou para os novos astronautas. Brindemos a luz do Sol e mesmo os dias cinzentos de chuva fina. Alegria e bom humor não precisam de motivo. É proposta da própria vida. Afinal, você já viu, no meio da floresta, árvore triste, emburrada, ou de mau humor?

Quais são as cores de Minas?                                    

As cores de Minas são o branco, do jeito calado, ensimesmado; o amarelo, da dor de perdas, do nunca mais; o preto, das lutas pela liberdade e igualdade; o azul, pelo direito de sonhar, com fé, esperança, “facamolada”; o roxo, das preces de nossas mães e o vermelho, do sangue de certas minas, que esburacam nossa Minas.

E da Música?                     

As cores da Música são as cores invisíveis, inexistentes na paleta do pintor comum. São as cores que vibram como auras em tudo que se traduz com ritmo. São as cores que, através das canções, nos levam até o arco-íris imaginário, da estrela Som.

E do Cinema?                         

As cores do Cinema são cores não somente de Almodóvar, mas também aquelas que habitam as profundezas da alma. Cinzas e diamantes de Wajda; cores trapezistas de Fellini; veladas de De Sica; sombrias e expressivas de Wiene ou Fritz Lang; agudas de Kurosawa; cores viscerais de Pasolini; reflexivas de Bergman; surreais de Buñel; ionnescamente absurdas de Glauber; cores mineiramente amáveis de Humberto Mauro.

Por falar em Cinema, já existe um filme com você e vem aí outro sobre você? Qual a novidade?                              

Sim, já existe um belo filme longa-metragem, com vários depoimentos muito importantes, sobre a minha trajetória artística. Um novo filme, documentário, outro longa-metragem, terá sua estréia ainda nesse ano de 2026. “Fernando Pacheco - O papel do Artista”, com direção de Ernane Alves, um multiartista, engajado na causa autismo. “O Papel do Artista” trata, conceitualmente, de parte importante de minha produção pictórica, cujo suporte técnico é o papel cartão ou papelão, descartado pela sociedade de consumo. 

Sim, conhecemos vários sabores de pizza, com as caixas que você usa como suporte...

E também papéis ou papelões mortos. Papéis cadáveres. O filme questiona: teria o artista algum papel a desempenhar, politicamente e/ou socialmente falando? Com passagens e locações insólitas, o filme conta com, por exemplo, “É proibido morrer no museu?”; depoimento de Carlos Heitor Cony (1926-2018) e participação excepcional do ator do Grupo Galpão de Teatro, Eduardo Moreira, lendo e interpretando um poema de minha autoria, do livro “Fernando Pacheco - Poemas de Atelier”.

É verdade que neste segundo documentário, você pinta em um cemitério?                             

Sim, verdade! Eu nasci em casa, na Rua Direita, em São João del-Rei, vizinha à Igreja do Carmo e ao seu cemitério anexo. O filme transitou por sombras e assombrações, por procissões, incensos, velas, sinos e matracas, de minha memória infantil. O Cemitério do Carmo, com suas sepulturas de gavetas nas paredes, compôs, para sempre, o expressionismo de raízes barrocas de minha obra artística. Tivemos cenas no interior da Igreja e no cemitério, eu pintei numa chapa acrílica transparente, onde o meu próprio rosto, misturado à pintura que fazia, misturava-se também às gavetas sepulcros, com nomes, memória, tranças desfeitas, vazio e saudade.

Por falar em cemitério, como vai a vida? Um longo rio tranquilo ou repleta de correntes e aventuras?

A vida segue como um longo e sinuoso rio, sem poluição. Rio com muitos afluentes, com partes rasas, superficiais e outras profundas, habitadas por raros e desconhecidos seres. Vida, rio de margens largas, fecundando terras, eclodindo ovos, sonhando com o sal das águas, que um dia, o beberá.

Você já viajou muito.  De onde desejaria trazer mais inspiração?                    

Sim, viajei muito, convidado para exposições em importantes museus, centros culturais e galerias, principalmente da Ásia e da Oceania, passando grandes temporadas e produzindo as obras lá. A inspiração não vem de fora, vem sempre de dentro para fora. Da jabuticabeira e pitangueira das portas do meu atelier na Pampulha, para o Mundo. Quem sabe, na próxima safra de jabuticabas, minha inspiração não se vista de arte e me leve, levemente, como Alice, ao País das Maravilhas?

Preparando exposição nova?                                     

Nos últimos 30 meses, eu expus individualmente na Galeria do TJMG/BH, no Museu Inimá de Paula e no BH Airport, além de ter imagens de minha pintura estampadas nos telões LED, pelas avenidas de BH, nos dias de carnaval e, posteriormente, outras obras, no telão/cenário do Grande Teatro do Palácio das Artes, no show de Telo Borges, homenagem ao Clube da Esquina e ao Lô Borges. No momento, preparo exposição, cujo local, ainda chama-se "Segredo".

2027 será o ano de gritarmos: nunca fomos tão felizes?

Pergunta bastante difícil! Felicidade está dentro de cada um. Fora do coração é artigo raro, nesse mundo de guerras, injustiça, desigualdade, corrupção, violência e política desacreditada. Não devemos gritar “fomos tão felizes”. Proponho então, mentalizarmos em silêncio: “somos felizes!”.