Paulo Navarro | Entrevista com Tamira Abreu
Entrevista com Tamira Abreu. Foto: Clarice Sabino
Todos os Sentidos
Para Dona Criatividade céu e mar são os limites. Leiam que bacana o que aconteceu no festival batizado como “Macacos Cine Gastrô”: bares, restaurantes e cafés de São Sebastião das Águas Claras (Macacos), com pratos criados a partir de filmes nacionais. 12 bares, restaurantes e cafés da vila criaram pratos inspirados em filmes brasileiros. "Desde a concepção do ‘Macacos Cine Fest’, queríamos que o festival fosse vivido por toda a comunidade e ocupasse diferentes espaços da vila”, confessou nossa entrevistada, Tamira Abreu, idealizadora do “Macacos Cine Fest” e do “Macacos Cine Gastrô”. O cinema foi o eixo central do festival e, a partir dele, música, gastronomia, formação, turismo e economia criativa. Ao ocupar diferentes espaços da vila, o evento ampliou o acesso à cultura, incentivou a circulação de moradores e visitantes e contribuiu para movimentar a economia criativa local. Mas tem mais: o “Cine Lapinhô”, fruto da produtora cultural, “Nós da Fita”, fundada com a missão de democratizar o acesso à cultura e fortalecer seu papel como ferramenta de transformação social. Claro, produtora também coordenada por Tamira Abreu. E o “Cinema da Favela” (formação audiovisual para jovens)? E o “Cine Bitaca” (mostra de curtas em bares de Belo Horizonte)? Só lendo a seguir.
Tamira, este belo nome exótico é libanês?
Na verdade, esse nome foi uma criação do meu pai, mas, depois, quando fiquei mais velha, descobri que ele tem origem árabe. Mas não foi essa a intenção. Meu pai achou que estava criando o nome, mas, na verdade, ele já existia.
Como produtora cultural, qual é a sua área? Há mais de 20 anos? E antes?
Já trabalhei em várias áreas. Trabalhei com moda e produzi alguns bazares. Depois, trabalhei no Instituto Fernando Sabino, com literatura e acontece que uma coisa envolve a outra. As artes conversam. Também trabalhei com o Giramundo, teatro de bonecos, que explora muito essa questão da sombra e da luz.
E agora?
Há alguns anos, entrei para o audiovisual, que é a área em que permaneci. Ainda faço algumas produções em outros campos, mas, cada vez mais, me envolvo e sigo pela área do audiovisual, seja produzindo eventos de exibição, oficinas de formação ou até mesmo curtas, séries e longas. Agora, estou produzindo uma série sobre gastronomia. Então, acho que é isso.
Desenvolvimento, gestão e produção de projetos. Tudo em torno de imagens e cinema? Tudo herança e experiência de produtoras como Camisa Listrada, Quarteto Filmes; os já citados Giramundo Teatro de Bonecos e Instituto Fernando Sabino?
É isso. Acho que toda experiência é válida. Assim, vamos ampliando nossa bagagem e uma coisa complementa a outra. No Instituto Fernando Sabino, a literatura serve como base para as outras áreas. Enquanto eu estava no Giramundo, começamos a desenvolver o projeto sobre Murilo Rubião, que era uma adaptação da obra. Foi quando surgiu o “Ex-Mágico”, um dos últimos espetáculos do Giramundo.
E a mala, a bagagem do audiovisual?
Quando entrei para Quarteto Filmes, comecei a trabalhar com a equipe e nas coproduções com a Camisa Listrada. Foi quando adentrei, me embrenhei no universo do audiovisual. O audiovisual reúne todas essas artes. Ele engloba tudo: adaptações, luz, sombra e som. Então, foi uma experiência muito válida, e é essa bagagem que me transforma no que sou hoje.
No Instituto Fernando Sabino, por exemplo, você adaptou algum livro dele?
Não, ainda não adaptei, mas Bernardo Sabino tem muito desejo de fazer alguma adaptação da obra. Há várias opções e vários títulos que ele pensa em adaptar. Já conversamos sobre isso, mas ainda permanece apenas como um desejo. Ainda não fizemos nenhuma adaptação.
“É Nós da Fita” e você na foto?
Na verdade, em “Nós da Fita”, pensei muito na época da fita, do rolo de fita, quando, para fazer audiovisual, precisávamos dele para filmar. Então, seria nesse sentido de Nós da Fita: nós do cinema mesmo.
Audiovisual rima com impacto social? Como?
Nossa, acho que o audiovisual é uma ferramenta incrível para trabalharmos com impacto social. É uma ferramenta de pesquisa, denúncia, criação e formação. Hoje em dia, todo mundo usa o telefone, cria, produz imagens e as faz circular. Então, há muito impacto social. O audiovisual rima muito com impacto social.
Qual é o exemplo mais recente de democratização da cultura?
Um dos objetivos da produtora, ou talvez o mais importante deles, é justamente democratizar a arte e o audiovisual, seja por meio de festivais ou mostras. Também temos um projeto de formação, o “Cinema da Favela”, por meio do qual levamos o audiovisual para dentro das escolas, das periferias e das favelas de Belo Horizonte.
Lazer e fazer?
Realizamos um trabalho com várias oficinas, que foi finalizado com a produção de um filme. Esse filme foi exibido para a comunidade. O projeto existe para que os estudantes entendam que são capazes de fazer filmes e produzir conteúdo audiovisual à sua maneira. Ao compreenderem a linguagem, a partir desse contato, eles se interessam em continuar produzindo e desenvolvendo trabalhos dentro do audiovisual. E, como falei anteriormente, hoje as crianças e os adolescentes andam com o telefone na mão, produzindo conteúdo audiovisual. Portanto, o audiovisual é uma ferramenta de democratização da arte.
Qual será o próximo exemplo?
Acho que não vou saber dizer qual será o próximo exemplo, porque ainda estamos construindo. Na verdade, estamos tentando… Ainda não sei. São tantos projetos e tantas ideias. Mas, atualmente, quero consolidar os projetos que já desenvolvemos: o Cinema da Favela; o CineBitaca, que é uma mostra de filmes em bares e botecos de Belo Horizonte; o Festival de Cinema da Lapinha da Serra...
Um deles é o Macacos Cine Fest. Qual é o conceito e o diferencial do evento?
Para Macacos, eu queria fazer algo diferente. Queria criar um diferencial para esse evento, realizado tão próximo de Belo Horizonte. Assim como no evento da Lapinha, temos o intuito de levar o cinema a novos lugares e territórios, ocupando esses espaços. Mas, pela proximidade com Belo Horizonte, eu queria oferecer algo diferente.
Ué, o lado musical!
Encontramos na música o diferencial para esse projeto, para esse festival que acontece em Macacos. A ideia é conectar os filmes e as produções audiovisuais com a música e as apresentações musicais, fazendo uma conexão através da programação entre os dois. Música e Cinema. Assim, conseguimos homenagear um ator que também seja músico ou apenas um grupo musical, como fizemos nessa edição homenageando o Uakti. Esse foi o diferencial que pensamos para o festival.
Os dois festivais, Cine Lapinhô, na Lapinha da Serra, e o recente Macacos Cine Fest, além de serem uma festa para os olhos, também são para os ouvidos e para o paladar?
É isso. Tanto no Festival da Lapinha da Serra quanto no Festival de Macacos, realizamos apresentações musicais, apresentações circenses e oficinas de formação nas escolas. Macacos tem um diferencial: estabelecer uma ligação entre os filmes, a programação fílmica e a música, de modo que uma coisa dialogue com a outra.
E o lado saboroso, literalmente?
Também temos o circuito gastronômico, que já pertence a outra área. Incentivamos os restaurantes a criarem pratos inspirados em filmes, o que é uma proposta muito diferente daquilo que estão acostumados a fazer. Geralmente, nos festivais, há um ingrediente ou algum tema, mas não algo relacionado à inspiração de um filme. Acho que esse é um diferencial da proposta que levamos para esses circuitos.
Como e por que combinar todos esses temperos em um verdadeiro Império dos Sentidos?
Ai, que bonita essa pergunta! Porque, realmente, criamos um império dos sentidos. Gostei disso! Temos o audiovisual, a música e uma programação para toda a família. Temos também os sabores, por meio do circuito gastronômico. Então, você come, vê filme, escuta música e ri com as apresentações circenses. A ideia é justamente essa: criar um império dos sentidos. Gostei muito disso. Trazer todas essas possibilidades e fazer do cinema, na verdade, o ponto de encontro para todas essas outras artes e possibilidades.








