Paulo Navarro | Entrevista com Roberto Pértile


Entrevista com Roberto Pértile. Foto: Rafael Sanabio

Filhos e Órfãos de Darwin

Conhecem aquele “meme”, aquela piada, que mostra a evolução do homem: do macaco ao homo sapiens? Na sequência, quando este último chega “ao fim” e vê no que deu, dá meia volta e diz ao neandertal atrás dele: “volta, que deu mal...”. Agora sério! Estamos evoluindo? A resposta vem lá da civilização de Florianópolis, antecipando o tom provocativo e necessário da conversa de hoje. Em tempos de mil revoluções e revelações por segundo, como a Inteligência Artificial, contemporânea da eterna Burrice Natural, o negócio é chamar o “3º Fórum da Mãe Terra” e perguntar diretamente: o progresso é sinônimo de consciência? Promovido pela Escola Nova Acrópole, o evento, no próximo dia 22, Dia Internacional da Mãe Terra, no Teatro Francisco Nunes, vai reunir especialistas de diferentes áreas para um diálogo que atravessa ciência, ética e desenvolvimento humano. À frente, nosso entrevistado, Roberto Pértile, farmacêutico graduado e mestre pela UFSC, professor de filosofia, secretário nacional de voluntariado da Nova Acrópole Brasil Área-Sul e voluntário da Defesa Civil em Florianópolis. Com este currículo, Pértile nos convida à análise profunda sobre o rumo da humanidade diante das transformações climáticas, sociais e tecnológicas. A seguir, os bastidores do fórum, os objetivos do encontro, iscas e pistas sobre o verdadeiro significado de evolução; aquela que não se mede apenas em inovação, mas em responsabilidade, equilíbrio e consciência coletiva.

Roberto, o “3º Fórum da Mãe Terra” parte da pergunta “Estamos evoluindo?”. Como nasceu essa provocação e o que ela revela sobre o momento atual da humanidade; demos certo? 

Esta questão é uma inquietação natural, pois muitos seres humanos sonham em viver melhor e num mundo melhor. Apesar de constatarmos avanços importantes e significativos na ciência e tecnologia, também é evidente que hoje temos problemas para os quais ainda não temos respostas satisfatórias. A pergunta sobre a evolução é uma proposta de reflexão e aprofundamento sobre o futuro da humanidade e de nosso planeta.

Qual o significado de realizar o encontro no Dia Internacional da Mãe Terra e que mensagem vocês pretendem reforçar com essa escolha? 

O Dia Internacional da Terra é uma data proposta pela ONU e gostaríamos neste ano de promover um momento de reflexão sobre se a sinergia entre a ciência e filosofia poderia nos ajudar a construir uma relação mais respeitosa e harmônica com a Mãe Terra.

O fórum propõe um diálogo entre Geologia, Medicina e Filosofia, reunindo especialistas ligados à Universidade Federal de Minas Gerais, à Universidade Federal de Santa Catarina e à Nova Acrópole; por que integrar áreas tão distintas e como essa conexão entre universidades e filosofia prática contribui para enriquecer o debate?

A ciência busca entender como a natureza funciona e como podemos melhorar o meio em que vivemos. A filosofia, por sua vez, busca compreender o porquê, o sentido da vida e promove o desenvolvimento de valores atemporais para uma vida mais feliz e harmônica com a natureza. É possível que, unindo o sentido e a prática, a filosofia e a ciência, possamos potencializar soluções para problemas individuais, sociais e para as questões das mudanças climáticas, por exemplo.

Em um cenário de avanços científicos e tecnológicos acelerados, quais são hoje os principais desafios éticos que precisamos enfrentar? 

Um dos grandes desafios éticos é a coerência e os limites entre as intenções dos cientistas e a regulação de uso das suas descobertas. Por exemplo, é inquestionável o benefício do celular nos últimos 30 anos, mas hoje já sabemos os malefícios que o uso de celulares tem gerado para as crianças e adolescentes em todo o mundo. Com a inteligência artificial e com a explosão do número de satélites em órbita, está acontecendo algo parecido...

O evento levanta a reflexão de que progresso técnico nem sempre significa evolução humana. Onde você percebe esse desequilíbrio na prática?

Segundo dados da ONU, o brasileiro hoje é povo com o maior índice de transtorno de ansiedade do mundo, atingindo 9,3% da população, cerca de 18 milhões de pessoas. Há várias causas e uma das mais relevantes é número de horas utilizando as redes sociais. No entanto, a solução não está em simplesmente regular o uso do celular, mas também desenvolver valores como a amizade e a fraternidade, um santo remédio para a ansiedade!

Qual é o papel da arte dentro do fórum e como ela contribui para ampliar a reflexão proposta? 

A arte, no sentido filosófico, busca expressar a beleza. Quando se toma contato com a arte, a beleza e a bondade que existem em cada ser humano podem ser despertadas. Um ser humano inspirado por estes valores, age com mais harmonia consigo mesmo, com os demais e com a Mãe Terra.

Como a atuação no voluntariado influencia sua visão sobre desenvolvimento humano e transformação social?

O voluntariado significa uma ação livre e de boa vontade em benefício daqueles que necessitam. Quando um voluntário age, não só transforma o mundo em que vive para melhor, mas também melhora a si mesmo. A generosidade cria um círculo virtuoso, em que, para aperfeiçoar a sua ação, o voluntário precisa ele próprio se tornar um ser humano melhor! Assim, o desenvolvimento humano individual gera naturalmente uma transformação social.

Para quem ainda não conhece, o que é a Nova Acrópole?

Nova Acrópole é uma escola de filosofia, que promove a cultura e pratica o voluntariado há 68 anos, em mais de 50 países. A principal atividade é o curso “Filosofia para Viver”, que concilia teoria e prática através de um programa de estudos que envolve os mais importantes sistemas de pensamento do Oriente e do Ocidente. Baseia-se em princípios como a fraternidade universal, o ecletismo e promoção de valores humanos e a compreensão da natureza.

E para finalizar, o convite para participar do fórum, com esse debate tão necessário. Podemos ter esperanças?

Esperança e felicidade são características da maioria dos filósofos da Antiguidade. Talvez porque tivessem mais clareza do sentido e da finalidade da vida humana e do Cosmos. Eu acredito que, se formos capazes de estabelecer algumas pontes entre a filosofia e a maravilhosa ciência de nossa época, poderemos encontrar, juntos, soluções inteligentes e práticas para muitos problemas e, assim, construir um mundo melhor para todos.