Paulo Navarro | Entrevista com Paulo Santos


Entrevista com Paulo Santos. Foto: Eugênio Sávio

Nosso Tio o Iauaretê

Sem esquecer nosso primeiro “ecologista”, Tom Jobim e suas infinitas maravilhas musicais; em 1976, gravando “Passaredo”, Francis Hime e Chico Buarque alertavam para o perigo: “Some, coleiro, anda, trigueiro, te esconde colibri. Voa, macuco, voa, viúva, utiariti. Bico calado, toma cuidado, que o homem vem aí”. Cinco anos depois, com “O Sal da Terra”, Beto Guedes e Ronaldo Bastos avisavam, suplicavam: “... a paz na terra, amor. O pé na terra. A paz na terra, amor. O sal da terra... Terra és o mais bonito dos planetas, tão te maltratando por dinheiro, tu que és a nave, nossa irmã...”. Por isso e mais um universo conspirando a favor, nosso entrevistado de hoje, o músico Paulo Santos, mais otimista, nos confidenciou: “a música com certeza é uma das fortes antenas que nos aproxima e nos une ao universo... Acredito na terra, no ar e no ser humano que pode modificar e desconstruir essa realidade de destruição”. No caso, este ser humano com certeza pertence aos povos originários com sua sabedoria e respeito pela natureza. Um dos frutos desta sabedoria mora em várias datas de rico cronograma:  “ÁraTekoha”, de Paulo Santos. A começar pelo Teatro Raul Belém Machado, no próximo dia 9 de abril, com a masterclass, "Os Sons": das 16h às 18h. A partir das 19h30, o show, com entrada gratuita. Mais, maiores e melhores informações, na modernidade em forma do incontornável Instagram: @paulosantospercussao.

Paulo, no “País da Memória Curta”, apresenta-te, brevemente, às queridas leitoras e caros leitores.

Me chamo Paulo Santos, sou músico, multi-instrumentista, cofundador do Grupo Uakti, conhecido pela inovação em utilizar instrumentos não convencionais, manufaturados, criados por Marco Antônio Guimarães. O grupo atuou por 37 anos e em parcerias com Milton Nascimento, Philip Glass, Paul Simon, Naná Vasconcelos, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Lô Borges, Skank, entre outros; tendo gravado treze discos e um DVD. 

O que quer dizer Uakit?

É o nome de um ser mitológico da tribo indígena Tukano. Diz a lenda que Uakti era um ser enorme que tinha o corpo cheio de buracos e que, quando ele corria pela selva, o vento produzia sons mágicos que atraiam as mulheres da tribo. Uakti as seduzia e os homens da tribo, enciumados, caçaram, mataram e o enterraram. No lugar da sepultura nasceram três palmeiras, que os indígenas cortaram e criaram três flautas que quando tocadas lembram o som de Uakti correndo livre na floresta.

Mesma pergunta para “ÁraTekoha”…

ÁraTekoha, na língua Guarani Kaiowá, pode ser assim traduzido: “o tempo e o lugar do nosso modo de ser, um conceito que articula, inseparavelmente, território, temporalidade, existência e cultura”.

E o álbum?

É concebido em dois atos que se complementam para formar uma visão de mundo. “Ára” significa tempo, dia ou época. No contexto de Tekoha, Ára pode ser entendido como a dimensão temporal que acompanha o modo de vida, incluindo os ciclos da natureza, os rituais e as atividades cotidianas. Já Tekohá refere-se à Terra: o lugar onde se vive o “teko”, que é o modo de ser, a forma de vida, os costumes e as tradições do povo Guarani.

O panorama da música instrumental no Brasil melhorou?

Acredito que sim, a linguagem da música instrumental é dinâmica e muitos jovens, excelentes músicos, continuam a produzir música instrumental. Claro que hoje é bem diferente em relação aos meios de produção e divulgação do trabalho musical. Hoje, existe apenas um caminho: as plataformas digitais.

O primeiro show será dia 9 de abril. Onde serão as próximas apresentações?

Vamos circular por Centros Culturais de Belo Horizonte entre abril e maio de 2026 com o projeto “ÁraTekoha”. A programação inclui masterclasses interativas sobre a construção de instrumentos e shows de lançamento do novo álbum. Tudo pode ser acompanhado em meu Instagram @paulosantospercussao.

Aulas “ensinam” música e também a criar instrumentos? 

A masterclass, tem como objetivo buscar um olhar aguçado sobre os processos, mostrar na prática como desenvolver um instrumento e como chegar a sua potencialidade na qualidade sonora e na qualidade da performance técnica.

“Qual nosso lugar no mundo”?

Quando comecei a criar/pensar/agir na construção do álbum “ÁraTekoha”, estas perguntas; qual ar respiramos?; qual ar queremos respirar?; qual terra pisamos?; qual terra queremos pisar?; me levaram a dimensionar a distância com que nós nos desviamos do caminho dos povos originários e sua sabedoria, como é destrutivo para o planeta não pensar como eles, de como são profundos os saberes e suas correlações com o universo, como estamos ficando distantes destes saberes. Acho que devemos reaprender com os que sabem ensinar, a buscar nosso lugar no mundo.

E este mundo continua em extinção, sem precisar de um meteoro?

Acredito na terra, no ar e no ser humano que pode modificar e desconstruir essa realidade de destruição de agora.

A música é o melhor, o mais fácil ou o mais agradável diálogo com a natureza, o mundo e o cosmos?

A música com certeza é uma das fortes antenas que nos aproxima e nos une ao universo, assim como todas as artes e também a ciência, as vibrações que fazem parte do fazer da música contêm o universo.

“ÁraTekoha” vai tomar posse de 2026, ou dá tempo para mais projetos?

“AraTekoha” chega como uma necessidade de me aproximar das raízes que me compuseram, o olhar voltado para a natureza, para preservar a natureza, para me conectar com a natureza, ser parte. Sempre estou em movimento, sempre com muitos projetos, tocando e gravando com muitos grupos e artistas, um dos projetos é a direção musical do novo álbum da cantora Selmma Carvalho que será lançado brevemente.

Quer terminar com um convite?

Quero convidar todas as pessoas a participar das mastersclasses e dos shows de lançamento deste trabalho, ÁraTekoha, uma imersão em sonoridades distintas, arranjos que mesclam o acústico com o eletrônico e a diversidade de instrumentos.