Paulo Navarro | Entrevista com Mauro Carrusca


Entrevista com Mauro Carrusca. Foto: Marielen Souza

Entre 0 e Infinito

A piada do dia é dizer que o currículo do nosso entrevistado de hoje, Mauro Carrusca, é “comum e fraco”. Piada sem graça? Então sintam a verdade e a autoridade: o homem é engenheiro eletrônico, estrategista de inovação e empreendedorismo pela Babson College (EUA). Tem longa trajetória profissional que inclui a idealização do primeiro coletor de dados nacional, projeto desenvolvido para a CEMIG e atuação como executivo e consultor da IBM Brasil e IBM EUA, no Silicon Valley. Atua também como mentor e conselheiro de entidades e empresas apoiando em visão de futuro, estratégias de inovação, governança colaborativa e a governança de IA. Dentre os conselhos, está na KER Innovation, empresa que fundou há 33 anos e no conselho de IA e Inovação da ACMinas. Frequentemente leva esses conceitos através de palestras e conferências para empresas e eventos. Carrusca comanda ainda o podcast “Entre 0 e 1”. Trocando em miúdos, Mauro Carrusca é um homem de seu tempo, logo, do futuro que acontece e modifica-se a cada duas horas. Mas todo cuidado é pouco. “O ser humano nunca está preparado para mudanças”, ainda mais estas que acontecem quando o tempo é cada vez mais curto e não para de passar. Como não existe bônus sem ônus e “almoço grátis, o corpo e a mente sofrem”. Resultado: a saúde mental derretendo mais que relógios de Salvador Dali: ansiedade, depressão, fadiga, insônia, Burnout, suicídios, hipertensão, diabetes, doenças cardíacas, entre outras. Mas, para “variar” a informação é o remédio para muita coisa, e ela está logo a seguir, aproveitem e viva la vida!

Mauro, hoje, pode-se dizer que você é um estudioso do impacto da tecnologia no ser humano ou muito é muito pouco nesta área?

Sendo oriundo da área de tecnologia (desenvolvedor de soluções), sempre tive a convicção de que ela (em sua forma mais ampla) é desenvolvida para melhorar a vida das pessoas. Por mais de 40 anos venho estudando o impacto da tecnologia no ser humano. Isso me permitiu navegar entre a tecnologia e a cultura de inovação, trazendo a perspectiva do "custo invisível do sucesso” e as “neuromudanças” do mundo moderno, uma leitura contemporânea da relação entre cérebro, ambiente e sociedade. Está ocorrendo um impacto profundo no nosso cérebro (observe o comportamento de crianças e adolescentes como heavy-users de smartphones, por exemplo). Observe nosso modelo mental e a forma como mudamos, nas últimas décadas, nossa forma de fazer as coisas e de enxergar tudo à nossa volta.

O ser humano está ou estava pronto para tanto impacto ou vive assustado?

Interessante sua pergunta. Mudanças sempre existiram e o ser humano nunca está preparado para mudanças. Acontece que no mundo digital as mudanças são muito rápidas e o espaço de tempo entre elas é cada vez mais curto. E isso assustou e vem assustando muito. Dica: no livro, “Pinceladas de Inovação” (https://keroinovar.com.br/pinceladas-de-inovacao/), no capítulo “a era da aceleração” discorro sobre compressão do tempo.

De cartas escritas à mão à Inteligência Artificial que, a cada dois dias, está mais inteligente. Temos tempo para nos adaptar e conviver com ela?

Acredito que a cada duas horas (risos). Na verdade, não temos outra saída. A palavra do momento é “adaptabilidade”. Sai na frente quem melhor conseguir usar a evolução tecnológica a seu favor.

O que diz da Teoria da Conspiração, onde humanos serão substituídos por robôs?

Particularmente, não acredito em suposições. Sabemos que essa teoria é baseada em crenças, em “se’s”, em fatos sem uma base real e sem comprovação científica. Uma rejeição à realidade factual. Nunca podemos perder de vista que nós, seres humanos, somos dotados de um artefato fantástico: o cérebro, que não só tem a capacidade de mudar/influenciar ambientes como ser mudado/influenciado por esses ambientes. Particularmente, não acredito que veremos uma máquina substituir o cérebro humano. Acredite, ele também está mudando. E, diante de situações-limites, nosso cérebro é capaz de criar soluções impensáveis enquanto vivemos na zona de conforto. 

Qual a verdadeira ameaça desta genial revolução tecnológica?

Indo direto ao ponto, a ameaça acontece para quem não quer enxergar o que está acontecendo. Muitos processos e posições de trabalho estão acabando. Tudo está passando por transformações: setores, sistemas, comportamentos... E muita coisa está nascendo. Novas demandas exigem um novo mindset e novos aprendizados. Por outro lado, vivemos um tempo de excessos: informação demais, cobrança constante por performance e comparação o tempo todo. O resultado disso é ansiedade, exaustão e um crescimento preocupante das doenças mentais. Além do agravamento da hipertensão, diabetes e outros males. Temos que nos preparar pois a tecnologia não vai parar. E vem muito mais pela frente.

Este medo do futuro presente faz mal à saúde mental?

Muito. Hoje, nos culpamos o tempo todo, muitas vezes, por não estarmos up-to-date (atualizados) com as novas ferramentas, novos conceitos e padrões. Queremos aprender mais e mais e de tudo, e ao mesmo tempo. Isso em nome da performance que achamos inadmissível não atingir. Como não existe almoço grátis, o corpo e a mente sofrem.

Como as pessoas estão ficando doentes?

Pressões no mundo do trabalho combinadas com o fácil acesso à informação e a falsa ideia de proximidade (algumas pessoas têm milhares, milhões de “conexões”) é uma combinação tóxica. Isso aliado ao mundo maravilhoso das redes sociais, onde o sucesso é quase uma regra, onde influencers rasos e até fake news contribuem para termos sempre a sensação de estar em desvantagem. Nos comparamo-nos o tempo todo e morremos de medo de perder alguma coisa e “ficar de fora” (FOMO/FOMA - Fear of Missing Out/Anything).

E...

O resultado? A saúde mental deteriorada - ansiedade, depressão, fadiga, insônia e Burnout além do aumento vertiginoso de suicídios e de doenças como hipertensão, diabetes, doenças cardíacas entre outras. No mundo do trabalho, isso vem provocando uma crescente dificuldade de contratação e retenção de mão de obra, perda de produtividade, absenteísmo e prejuízos financeiros gigantes para as empresas e a saúde pública.

Como tratá-las?

Eu não sou médico e nem profissional do campo humano (psicólogo ou terapeuta...). Consigo pontuar em relação às empresas e organizações, por vir acompanhando essa evolução tecnológica há tantos anos. O que vejo é que vivemos um momento ímpar. A evolução tecnológica impactou e vem impactando fortemente o nosso modo de viver, trabalhar e de relacionar. Na minha visão, o grande tratamento é a prevenção. Fala-se muito em letramento digital, que é importante, mas além de saber usar e incorporar as tecnologias, é preciso evitar que as pessoas atinjam o estado da doença mental.

E por onde começamos?

Acredito que o primeiro passo é entender como a tecnologia nos impacta e como podemos usá-la para melhorar nossa vida. Isso inclui entender que é necessário delimitar o tempo em que nos expomos a equipamentos e soluções. Pesquisas mostram que os brasileiros estão entre os que mais passam tempo conectados, uma média de 5h30 por dia utilizando smartphones. Outro ponto é ter uma postura mais crítica em relação aos conteúdos que acessamos e não abrir mão da reflexão. Também acredito que dar participação e voz às pessoas é muito importante, mas para isso é necessário repensar esse modelo de gestão e governança baseado no “manda quem pode e obedece quem tem juízo”.

O que você chama de ressignificação do ser humano?

Infelizmente, estamos caminhando para uma sociedade em castas tecnológicas – quem tem e quem não tem esse acesso a essas novas, tecnologias e a forma como as pessoas as manejam e constroem riqueza a partir delas. A ressignificação do ser humano significa inclusão, equidade, entender que a tecnologia é uma ferramenta poderosa para aumentar a eficiência de processos, para conectar pessoas, melhorar nossas vidas entre outros, mas nunca para substituir nosso pensamento, nossas relações, nossa criatividade e capacidade crítica. Veja o salto de qualidade e eficiência imposta pela tecnologia no agronegócio, na saúde, no comércio etc. Fica uma provocação: como garantir o acesso a toda essa evolução para todos?

O que é a KER Innovation?

Atuamos para o desenvolvimento e o fortalecimento da cultura de inovação nas organizações. Acreditamos no poder da colaboração para construir soluções mais inteligentes e eficazes, através do conhecimento que reside no coletivo, nos diferentes backgrounds e perspectivas. A KER Innovation existe há 33 anos e atuamos a partir de um framework de gestão e governança colaborativa (Propriedade Intelectual - 2014), que chamamos de Plataforma KER. Oferecemos programas de inovação colaborativa para ampliar a visão de futuro e engajar pessoas na construção de soluções e inovações que trazem valor para as empresas. Esse trabalho inclui o repensar da gestão e da governança desenvolvendo uma cultura que estimula a inovação, inclui pessoas; promove a inclusão e a colaboração em todos os níveis e processos.

E o podcast, “Entre 0 e 1”?

Esse projeto é a concretização de um sonho. Um sonho de poder ajudar as pessoas contribuindo com que aprendi em minha trajetória profissional e de alguma forma ajudar no enfrentamento das doenças mentais, problema que se agrava a cada dia. Como disse, a tecnologia impactou fortemente o comportamento das pessoas e vejo muita gente despreparada, angustiada e incapaz de compreender que os resultados são fruto de uma jornada, que erros são parte do processo e precisam ser encarados de forma positiva, que nem sempre vamos atingir o sucesso e tá tudo bem.

Faz parte do nosso show, do show da vida.

Faz parte da vida. Há algum tempo, ficou evidente para mim que minha experiência só faz sentido se ajudar a transformar esse cenário. O “Entre 0 e 1 Podcast” nasce com o propósito de conectar histórias e aprendizados de quem já enfrentou desafios reais e tem algo verdadeiro a compartilhar. É o podcast das lições aprendidas. Lições que atuam como luzes que inspiram, ensinam e fortalecem a resiliência. Exploramos a zona cinza da tecnologia, da ciência e da vida.

Faltou algum recado, um convite?

No “Entre 0 e 1”, acreditamos que aprender com trajetórias reais, repletas de incertezas, dificuldades, e erros é algo muito poderoso. Temos convicção que uma escuta honesta pode ser exatamente o que alguém precisa para atravessar seus próprios desafios, criar coragem e tomar decisões assertivas. Estamos presentes no Youtube, Spotify e Instagram. Fica aqui o convite: visitem nosso canal, inscreva-se para receber novos episódios e sugira participantes que tem histórias reais para contar.