Paulo Navarro | Entrevista com Leônidas Oliveira
Entrevista com Leônidas Oliveira. Foto: Divulgação/Secult/MG
Leônidas Gerais
Primeiro, a pequena São Gotardo, sua cidade natal, depois o mundo? Cosmopolita desse mesmo mundo e do Planeta Minas? Como apresentar nosso entrevistado, pela terceira vez, lembrando que, para ele, insaciável criador, muito é muito pouco? Arquiteto? Morador na Filosofia? É inteligente, rara qualidade que desencadeia mil outros bons adjetivos. Inteligente que rima com exigente; bem-humorado, engraçado, sincero, sem “mamas e papas” na língua, inclusive o “mineirês”. Barroco e Moderno. Talvez o mais longevo, com certeza o mais ativo e combativo secretário de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais. Este é Leônidas Oliveira, admirador do antropólogo, filósofo e sociólogo francês, Edgar Morin (1921-2026), autor de uma reflexão que ganha ecos em nosso entrevistado: “A compreensão humana é, ao mesmo tempo, o meio e o fim da comunicação humana. Compreender não só aos outros como a si mesmo, pois o mundo está cada vez mais devastado pela incompreensão, que é o câncer do relacionamento entre seres humanos”. O escritor irlandês, Oscar Wilde (1854-1900), dizia que nenhuma pergunta é indiscreta, as respostas é que costumam ser. Por isso não estranhem as três últimas perguntas, muito menos as repostas, para lá de interessantes. Era com elas que Bernard Pivot (1935-2024) jornalista francês e apresentador de programas culturais na televisão, terminava suas entrevistas com os maiores intelectuais franceses e estrangeiros. Como poderão perceber, nossas perguntas são apenas o mapa, as respostas de Leônidas Oliveira são a mina, melhor, minas gerais, “pouco antes do Ocidente se assombrar”.
Leônidas, entre a versão 1.0 e a atual, 2.0, você passou, digamos, por um “período sabático” em São Paulo. O que aprendeu e o que ensinou lá?
Foram seis anos sem férias. Então, quando falo desse período em São Paulo, falo de um tempo que foi pausa, trabalho, estudo e reconstrução. Chamo de sabático porque foi, sobretudo, um tempo de autoconhecimento. Cuidei da saúde, do corpo, da alma e reorganizei a vida por dentro. Mas não foi uma interrupção: trabalhei, fiz projetos incríveis, estudei muito e aprendi muito.
Alguma coisa aconteceu no teu coração, que só quando cruzou a Ipiranga e a Avenida São João, como canta Caetano Veloso?
São Paulo me provoca algo curioso: a imensidão da cidade me faz voltar para mim mesmo. É uma cidade que ensina solidão e solitude. Há menos redes afetivas imediatas, menos intimidade cotidiana, e isso me obrigou a me escutar melhor. Foi também um tempo de me descobrir diferente - de entender melhor meu modo de pensar, de sentir e de me afetar pelo mundo.
Mas conjugou o verbo “Amar, Verbo Intransitivo”, como queria o paulistano da gema e da clara, Mário de Andrade?
Aprendi com o ritmo, a exigência, a diversidade e a escala de São Paulo. E, se ensinei alguma coisa, talvez tenha sido convivência. São Paulo tem uma cultura forte do mérito, da execução e da produtividade, mas às vezes conversa pouco com as conexões humanas. Eu venho de Minas, onde a vida é também rede de afetos, vínculos, teias, conversas e encontros. Talvez eu tenha levado um pouco disso: a ideia de que a vida não é uma equação exata; ela é uma trama.
Do que mais sentiu falta em Minas, ou não sentiu?
Do sol, em primeiro lugar. Senti falta desse sol forte, desse calor que em São Paulo às vezes desaparece por dias. E não falo só do calor climático, mas também do calor humano, desse modo mineiro de estar junto. Senti falta do afeto, dos amigos, da terra, da comida. Senti falta do modo como Minas nos recebe antes mesmo de a gente chegar.
Você voltou pronto para 1001 outras. Vamos começar pela Cultura. Algumas palavras para os 55 anos do Palácio das Artes, da Fundação Clóvis Salgado.
O Palácio das Artes é o lugar onde Minas sai do silêncio e entra em cena. Minas é muito feita de recolhimento, de gesto contido, de coisa dita pela metade. No Palácio, ela canta, dança, interpreta, desafina às vezes; ela acerta em cheio muitas outras, mas aparece. É uma casa onde Minas se vê no espelho da arte. E, quando o espelho é bom, ele não mostra só a beleza; mostra também a alma.
Sentimos aí uma gota do oceânico Ferreira Gullar, ao escrever que “a arte existe porque a vida não basta”.
A arte salva. E o Palácio das Artes tem salvado muita gente. Salva formando artistas, abrindo portas, criando repertório, oferecendo beleza, conflito, pensamento, espanto. Salva porque lembra que a vida não precisa ser apenas sobrevivência; ela também pode ser criação.
E fazendo aniversário...
Aos 55 anos, o que se deseja ao Palácio das Artes é vida longa. Mas vida longa não apenas no sentido da permanência física. Vida longa como casa de criação, experimentação, formação de artistas, encontro entre gerações e síntese da multiplicidade mineira. Amanhã, in loco, será lançado o primeiro volume sobre o Palácio das Artes, contando sua história.
Você tem alguma em particular?
Tive a honra de escrever a introdução desse livro. Para mim, o Palácio das Artes não é apenas uma epopeia arquitetônica. É uma epopeia humana. A primeira vez que vi uma orquestra sinfônica na vida foi no Palácio das Artes. Eu tinha 16 anos. Nunca me esqueci. Para muita gente pode parecer cedo. Para mim, foi na hora exata: cedo o suficiente para me assombrar, tarde o suficiente para eu entender que aquilo mudava alguma coisa por dentro. O Palácio está impregnado na minha formação artística e cultural. Não é apenas um equipamento cultural; é um lugar de iniciação, descoberta e espanto.
Você vai lançar novo livro? Quando, onde e por quê? Qual o tema?
Sim. Estou nos ajustes finais, trabalhando fotos e alguns detalhes do texto. Devo lançá-lo no segundo semestre, mas ainda estou definindo o local. O livro é fruto da minha primeira passagem pela Secretaria, dessa versão 1.0, digamos assim. Ele nasce do desejo de compreender tudo o que vi em Minas Gerais: viajando pelo interior, circulando pela capital, encontrando pessoas, ouvindo comunidades, convivendo com culturas, festas, modos de vida, paisagens e memórias.
Turista aprendiz, nada acidental, viajante total...
Ao longo dessas viagens, fiz de Minas e das minhas anotações uma espécie de diário de bordo, um diário de campo. Não foi apenas trabalho institucional. Foi pesquisa; uma escuta, observação e elaboração. É um livro sobre mineiridade, mas não como nostalgia. Minas não é apenas território; é uma forma de estar no mundo. É paisagem, fé, comida, trabalho, silêncio, palavra, arquitetura, memória, rios, montanhas e modos de convivência. É uma tentativa de compreender Minas como força contemporânea: uma cultura que não precisa se fantasiar para ser profunda.
Passemos às “praias” do Turismo, sempre crescendo em Minas e com agenda cheia. Primeiro, fale-nos, brevemente, se conseguir, sobre o “Minas Essencial”.
O “Minas Essencial” é uma resposta ao tempo em que vivemos. Muito se fala em novo luxo, experiências autênticas, reconexão e pertencimento. Ao mesmo tempo, vivemos num mundo cada vez mais artificial, acelerado e performático. Eu tenho certa implicância com essa frase: “Minas não tem mar”. Parece uma tristeza geográfica, uma saudade do que não somos. Se tivéssemos mar, não seríamos o que somos. Simples assim - por mil e uma razões filosóficas.
“Não é Minas que não tem mar, é o mar que não tem Minas Gerais”?
Minas pode não ter mar, mas Minas é nascente. E nascente, convenhamos, é mais discreta que mar, mas talvez seja mais filosófica: não faz espetáculo, mas começa mundos. Minas é nascente de alguns dos rios mais importantes do Brasil e do continente. É nascente de brasilidade, cultura, hospitalidade e formas de viver. Tem montanhas, tem terra, mas também é feita de águas que correm para outros lugares. Há em Minas praias sem mar, praias de rio, praias interiores, praias simbólicas.
Daí a essência, o perfume de Minas!
O “Minas Essencial” nasce dessa percepção: reconhecer aquilo que Minas tem de mais verdadeiro a oferecer. Minas não precisa inventar uma essência. Precisa reconhecer, qualificar e compartilhar aquilo que já é profundamente seu.
E o “Minas Hospeda”? Como foi o congresso “AMIHLA Desafios da Hotelaria 2026”?
Depois da cozinha mineira, talvez a hospitalidade seja uma das expressões mais fortes da nossa identidade. O “Minas Hospeda” fala exatamente disso: do modo como Minas recebe. O congresso foi surpreendente porque vivemos um momento muito bom do lazer em Minas. E há algo interessante na gênese desse movimento: ele nasce durante a pandemia, quando falar de lazer, hotelaria, piscinas, convivência e espaços coletivos era extremamente complexo.
Fiat Lux, "faça-se a luz"?
Eu acompanhei esse nascimento. E me impressiona ver como o setor se organizou. É uma feira que não depende exclusivamente do serviço público. Une produtos, hotéis, prestadores de serviços, empresas, tendências, soluções e experiências. Tem uma forma mercadológica muito interessante, mas com olhar claro para conforto, inovação e comportamento. Receber bem é cultura, economia, turismo e afeto. Mas também é mercado, profissionalização e leitura de futuro.
E o “Inverno em Minas”? Outro luxo para a alma?
Sem dúvida. O inverno em Minas não é apenas uma estação. É um estado de espírito com meia, queijo, vinho, fogão aceso e certa autorização para ficar mais recolhido. O frio desses dias, as montanhas, a Mantiqueira, Monte Verde, a Cordilheira do Espinhaço, as novas vinícolas, os festivais, os cafés, os queijos: tudo isso compõe uma experiência muito verdadeira. Minas já é introspectiva por natureza; no inverno, ela assume isso com charme. A paisagem fica mais recolhida, mais elegante, mais íntima. É um convite à alma.
Alguma novidade em primeira mão? Avenida Cultural?
A Avenida Cultural é uma das ideias mais bonitas que estamos amadurecendo. Belo Horizonte tem uma vocação cultural urbana muito forte, e precisamos olhar para seus eixos simbólicos com mais intenção. A ideia é pensar a cidade como experiência cultural contínua, conectando equipamentos, patrimônio, circulação, programação artística, turismo e vida urbana. Ainda estamos trabalhando os detalhes, mas há um desejo claro: fazer com que a cultura ocupe a cidade de forma mais visível, cotidiana e integrada. Minas tem grandes equipamentos, grandes instituições e grande produção artística. O desafio agora é costurar isso em percursos, experiências e narrativas.
Agora, um bate-bola. Qual das 11 principais formas de arte te toca mais?
A literatura, sem dúvida. A literatura me toca porque organiza o invisível. Ela dá forma ao que a gente sente antes de saber dizer. A palavra, quando encontra sua precisão, é uma forma de arquitetura da alma.
Não vale citar Minas Gerais! Qual a cidade, lugar ou país mais incrível que você já conheceu?
A Turquia. Pela densidade histórica, pela mistura de mundos, pela beleza, pela espiritualidade, pela sensação de travessia entre Oriente e Ocidente. É um lugar que nos lembra que a civilização é feita de camadas, encontros, ruínas, fé, comércio, impérios, comida, paisagem e mistério.
Com quem você ilustraria uma nota de R$ 500?
Com Edgar Morin. Ele foi, sem dúvida, o filósofo que mais li nos últimos anos. Morin me interessa porque sua obra nos ensina a pensar a complexidade, a religar saberes, a compreender que nada existe isoladamente. Num tempo de simplificações brutais, ele nos lembra que a realidade é feita de relações, contradições, interdependências e humanidade. Uma nota de R$ 500 com Edgar Morin seria uma provocação interessante: valeria muito, mas exigiria pensamento complexo para gastar.
“Se um dia você morrer”, como o que ou quem gostaria de voltar, de reencarnar?
Como um herdeiro, rsrsrs. Mas um herdeiro responsável, evidentemente - porque até no delírio eu tenho algum senso de gestão. Talvez porque minha vida tenha sido muito marcada pela construção, pela travessia, pela luta. Voltar como herdeiro seria experimentar outra relação com o tempo: menos sobrevivência e mais contemplação.
“Se um dia você morrer”, o que gostaria que lessem em tua lápide ou onde gostaria que tuas cinzas fossem jogadas?
Eu gostaria de ser cremado com a fita do Sagrado Coração de Jesus da minha mãe. E gostaria que minhas cinzas fossem jogadas onde ela está, em Casa Branca, no rio, na confluência de três rios. É um lugar muito especial para mim. Se houvesse uma frase, talvez fosse algo simples: “Amou as pessoas com intensidade.” Mas, no fundo, acho que prefiro a imagem das cinzas na água. Minas não é só montanha, não é só terra. Para além da terra, Minas também é feita de rios. E esses rios levam, misturam, devolvem.








