Paulo Navarro | Entrevista com Leonardo Barcelos


Entrevista com Leonardo Barcelos. Foto: Gabriel Penna 

Corpos Ardentes

Galera “sangue bom”; dona de corpos sãos e mentes idem, hoje, com nosso entrevistado, o diretor, roteirista e produtor Leonardo Barcelos, recomendamos vivamente a exposição “Polifonia da Presença”, em cartaz até 23 de outubro, no Centro Cultural UFMG. “É projeto  que propõe nova forma de experimentar o cinema documental, transformando imagens, sons, gestos e atmosferas cinematográficas, para que o público entre, penetre nas obras. Fruto nada proibido de pesquisa audiovisual desenvolvida ao longo de mais de dez anos por com diferentes roteiristas, pesquisadores e profissionais que participaram das obras da Trilogia do Corpo: os filmes ‘Corpo Presente’, ‘O Que Pode o Corpo?’ e à série documental ‘Cartografias do Corpo’.  Barcelos é mais: cineasta e roteirista com mais de 25 anos de atuação no audiovisual e nas artes contemporâneas. Bacharel em Comunicação Social pela UFMG e pós-graduado em Comunicação, Novas Tecnologias e Hipermídia pela UNI BH. Seus filmes foram exibidos em mais de 40 países, em festivais, museus e instituições culturais da América Latina, Europa e Estados Unidos. Foi membro fundador do Coletivo Teia, com obras em festivais como Berlinale, Veneza, Toronto, Locarno, Rotterdam, Sundance e San Sebastián; MoMA, New Museum e Inhotim. Dirigiu os documentários ‘Balança Mas Não Cai’ (2012), ‘Corpo Presente’ (2023), com estreias na Mostra de Tiradentes e no Festival de Havana, e ‘O Que Pode o Corpo?’ (2024). Também criou a série documental ‘Cartografias do Corpo’ (13 × 26 min). Atualmente finaliza o longa híbrido ‘Territórios do Sensível’”. Entenderam nada? Vão entender agora!

Leonardo, para os leitores que não te conhecem, brevemente, quem é e como começou Leonardo Barcelos?

Sou cineasta, roteirista e produtor de Belo Horizonte. Comecei no audiovisual no fim dos anos 1990, muito atravessado pela vídeo arte, música, artes visuais e por uma vontade de experimentar formas. Ao longo do tempo, o cinema foi virando também um lugar de encontro com a performance e as artes contemporâneas. Acho que meu trabalho nasce muito dessa mistura: contar histórias, mas também construir experiências de imagem, som e presença.

O que é polifonia? Um coro?

É quase um coro, mas um coro em que as vozes não precisam cantar a mesma música. Polifonia é quando muitas vozes coexistem, se atravessam, às vezes concordam, às vezes entram em tensão. E isso tem tudo a ver com a exposição: ela reúne artistas, pensadores, personagens, imagens e corpos muito diferentes, sem tentar transformar tudo numa fala única.

O que é “Polifonia da Presença”?

É a minha primeira exposição individual e o desdobramento de uma pesquisa de mais de dez anos sobre o corpo e suas possibilidades. Ela transforma filmes e série documental em quatro instalações imersivas. Em vez de assistir às imagens, sentado, diante de uma tela, as pessoas caminham entre elas, vêem o próprio reflexo, escutam vozes, encontram outros corpos e passam a fazer parte da experiência.

Fruto da “Trilogia do Corpo”? Outra exposição? Projeto?

É fruto da “Trilogia do Corpo”, formada por “Corpo Presente, O Que Pode o Corpo?” e a série “Cartografias do Corpo”. Mas não é uma simples retrospectiva nem uma projeção de filmes em galeria. É uma nova obra, concebida para o espaço: as imagens foram remontadas, colocadas em diálogo e ganharam matéria, escala e outra duração.

Corpo como movimento, um manifesto ou simples presença?

Talvez tudo isso, mas sem a obrigação de virar um manifesto com letras garrafais. O corpo é movimento, memória, desejo, conflito, invenção. É íntimo e político; individual e coletivo. Ele pode ser uma presença aparentemente simples, mas hoje basta olhar um pouco ao redor para perceber que nenhum corpo é simples: há disputas sobre quem pode aparecer, circular, desejar, existir e ser reconhecido.

Como “experimentar o cinema documental”?

No cinema, geralmente a imagem está diante de você. Na exposição, ela está ao redor, atravessa o espaço e encontra seu próprio corpo. O documentário continua ali - nas vozes, nos gestos, nas histórias reais - mas deixa de ser apenas uma narrativa para ser também ambiente. A ideia é menos “entender tudo” e mais sentir como aquelas imagens reverberam em você.

Mil perdões pelo “interrogatório”, mas o que são “narrativas híbridas”?

[Risos.] É uma boa pergunta. Para mim, narrativa híbrida é quando o filme não precisa escolher uma gaveta só. Ele pode ser documentário, mas acolher performance, ficção, arquivo, encenação, poesia, conversa, silêncio. A vida já é meio híbrida; o cinema também pode ser. O importante é que essa mistura não seja enfeite: ela precisa ajudar a dizer algo que uma linguagem sozinha não daria conta.

E o Coletivo Teia?

A Teia foi uma experiência muito formadora para mim. Era um espaço de criação coletiva, de experimentação e de convivência entre cinema, artes visuais e pessoas. Foi uma escola sem muita placa na porta: aprendíamos fazendo, errando, estabelecendo diferentes formatos e circulando trabalhos. A Tandera (produtora) nasce também desse desejo de manter vivo esse campo de criação.

Teus filmes são cosmopolitas, universais, viajaram muito?

Eles viajaram bastante, felizmente - por festivais, salas, museus e mostras em mais de quarenta países. Mas eu tenho um pouco de cuidado com a palavra “universal”, porque ela às vezes apaga as diferenças. Prefiro pensar que os filmes partem de experiências muito situadas - de Minas, do Brasil, de determinados artistas e territórios - e encontram ressonância em outros lugares. O corpo é uma matéria comum; as experiências de corpo, não.

Para terminar, uma continuação? “Territórios do Sensível”?

Sim. “Territórios do Sensível” é um longa documental híbrido que está em pós-produção. Ele amplia algumas questões que me acompanham, agora pelo encontro entre arte, memória, território e política. Acompanhamos artistas mineiros que retornam a lugares de origem, atravessando aldeias, vales, fábricas e rios. É um filme sobre o que desaparece, o que resiste e como ainda podemos imaginar outras formas de habitar o mundo.

E em 2027, quais os projetos?

2027 deve ser um ano de continuidade e abertura. Quero fazer a série “Cartografias do Corpo” circular, estruturar a segunda temporada; pensar novos desdobramentos de “Polifonia da Presença” e avançar na finalização e circulação de “Territórios do Sensível”, previsto para o primeiro semestre. Mas aprendi que projeto também tem vida própria: a gente planeja e o trabalho vai mostrando outros caminhos. Ainda bem.