Paulo Navarro | Entrevista com João Vasques
Entrevista com João Vasques. Foto: Ivny Coura
Dendê no Queijo
João Vasques é “cabra da peste marcado” para brilhar e fazer gente brilhar, desfilar e exultar nas avenidas, ao ritmo do maior espetáculo da Terra, o Carnaval. O mesmo “entrudo”, que nasceu no Rio de Janeiro e/ou na Bahia, hoje é a maior festa de Belo Horizonte, um dos maiores Carnavais do Brasil. Para nossa sorte, o baiano da gema e do acarajé, João Vasques, escolheu Belo Horizonte para sentir saudade da Bahia. Mas de Salvador chegou com malas e cabeça cheias de ideias. Ideias que já foram plantadas para 2027!
Mas vamos ao que interessa! João está à frente e por cima do bloco “Me Deixe”, que se apresenta e se diverte, hoje, na avenida Getúlio Vargas, na Savassi e, amanhã, na avenida Afonso Pena, no Centro. Nas duas oportunidades ele promete o que esperamos todos os anos: música, poesia e cultura; amor, energia e alegria; organização e criatividade; axé, ritmos brasileiros e sucessos contemporâneos. O bloco, que começou como muitos outros, de uma brincadeira, hoje é coisa séria, mesmo com descontração total. É quase uma empresa e com certeza, ação entre amigos, exigindo muito trabalho e dedicação. Dedicação que rima com sertão, tema dos desfiles do “Me deixe”, afinal, o “sertão é uma grande fonte de inspiração, cheio de força, identidade e resistência”. Pronto, agora a gente deixa o João falar. Bom sertão no asfalto a todos!
João, o que a Bahia tem (ou tinha) para ser trocada por Minas?
A Bahia tem acarajé, praia, cheiro do dendê, família, axé e Carnaval, mas também tem luta, ancestralidade e um povo que transforma cultura em resistência. Minas me recebeu com montanhas, aconchego e o cheiro de pão de queijo, mas, principalmente, com escuta, troca e possibilidade de construção coletiva. Aqui entendi que cultura também é política pública, ocupação da rua e direito à cidade. Minas virou casa porque me permitiu plantar raízes, misturar referências e criar junto. Quem chega, depois não consegue mais ir embora… rs.
BH já foi, como São Paulo também já foi, o “túmulo do samba”?
Essa frase diz mais sobre um tempo e um olhar do que sobre as cidades. BH sempre foi um território de criação, ainda que muitas vezes invisibilizado. O samba, o Carnaval e a cultura popular sempre estiveram aqui, pulsando nos bairros, nas periferias, nas rodas pequenas, longe dos holofotes. O que mudou foi a escuta. Hoje BH se permite celebrar suas muitas vozes, seus encontros e misturas. Quando a cidade ocupa as ruas, fica claro que não se trata de ressurgimento, mas de reconhecimento.
Por que fundar um bloco e por que o nome “Me Deixe”?
O bloco nasceu de uma brincadeira entre amigos. “Me deixe” ("me deixe em paz", "pare de me incomodar" ou "me largue") é uma expressão da Bahia que eu uso muito e uma amiga deu a ideia de usar essa referência. Fundar o bloco foi bem natural… Como bom soteropolitano apaixonado por Carnaval e com experiências em blocos de Salvador, resolvi profissionalizar o “Me Deixe”, trazendo o que deu certo na Bahia, adaptando para o Carnaval de BH, sempre respeitando a essência do carnaval mineiro.
O bloco já soma quantos Carnavais? Qual foi o melhor até agora?
Este ano completamos o sétimo ano de história e o quinto Carnaval, desconsiderando o período da pandemia. Todos foram incríveis, mas em 2023 teve um sabor especial: o retorno, depois de dois anos sem folia, foi inesquecível.
Este ano, Carnaval rima com Sertão?
Demais! O sertão é uma grande fonte de inspiração, cheio de força, identidade e resistência. Nossa paleta de cores esse ano vem dos tons terrosos do sertão e a nossa ala de dança trará elementos que remetem ao sertão mineiro e nordestino.
O Sertão é o “Clube da Esquina” de Minas com o Nordeste?
De certa forma, sim. E é esse ponto de encontro onde Minas e Nordeste se conectam pela sensibilidade, pela música, pela poesia e pela forma intensa de sentir e viver a cultura.
Tem diferença entre os dois Carnavais, mesmo tendo uma só batida?
Tem, e isso é o mais bonito. A batida é uma só, mas cada lugar coloca sua alma, seu jeito e sua história. É essa troca que faz o Carnaval ser tão rico.
É fácil colocar um bloco na rua, no caso, numa avenida?
Não. Dá trabalho demais! Exige muita organização, responsabilidade e uma equipe muito dedicada. Um dos maiores desafios é a captação de recursos, porque a gente precisa mostrar resultado, profissionalismo e transparência para conquistar a confiança dos patrocinadores. Mas, no fim das contas, é tudo feito com muito amor - e a energia do público na rua faz tudo valer a pena.
Quem vai te deixar desfilar hoje?
O desfile do bloco “Me Deixe” na segunda-feira de Carnaval integra um projeto cultural realizado com recursos da Lei Estadual de Incentivo à Cultura de Minas Gerais, da Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais, com patrocínio da CEMIG e da Implantar Telecom, por meio do mecanismo estadual de incentivo fiscal. O projeto conta ainda com patrocínio institucional da Prefeitura de Belo Horizonte, por meio da Belotur, reforçando o compromisso com o fortalecimento do Carnaval de rua e da cultura popular na capital mineira.
Quem vai te deixar desfilar amanhã?
Já o desfile de amanhã integra projeto cultural viabilizado por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet), do Ministério da Cultura, com patrocínio da POPSOL, empresa do Grupo CMU Energia, também por meio do mecanismo de incentivo fiscal. Esse projeto conta igualmente com o patrocínio da Prefeitura de Belo Horizonte, via Belotur, reafirmando a importância da valorização do Carnaval de rua, da cultura popular e da ocupação democrática do espaço urbano.
Então, deixemos palmas aos patrocinadores!
Esses apoios são fundamentais para que o bloco exista, cresça e continue ocupando a cidade com alegria, diversidade e responsabilidade cultural.
Vocês desfilam hoje, dia 16, e amanhã, dia 17. Teriam fôlego para mais dias?
Se desse para sair todos os dias, não seria nada mal. Hoje a animação está lá em cima, aquela ansiedade boa de estar na avenida, encontrar o público e ver tudo ganhar vida. O fôlego vem justamente desse momento: da rua cheia, da troca com as pessoas e da energia que só o Carnaval consegue gerar. Enquanto tiver gente cantando, dançando e ocupando a cidade com alegria, vontade não falta.
Só para te testar… já está pensando em 2027?
Com certeza. Nem passou o Carnaval e a cabeça já está fervilhando de ideias para o próximo ano!






