Paulo Navarro | Entrevista com Hannah Ananda Bougleux
Entrevista com Hannah Ananda Bougleux Gomes. Foto: Arquivo Pessoal
Dra. Da Hora H
Extra! Extra! Médica brasileira formada em Harvard recebe um dos mais importantes prêmios científicos dos Estados Unidos! Que tal? Melhor, médica mineira! De BH! Dra. Hannah Ananda Bougleux Gomes é homenageada pelo National Institutes of Health - NIH, principal agência de pesquisa biomédica do governo norte-americano. Nossa competente, talentosa e linda entrevistada é cirurgiã pediátrica no Massachusetts General Hospital – MGH e pesquisadora na Harvard Medical School. A “medalha de ouro” foi concedida em razão da excelência de sua produção científica e da relevância de suas pesquisas na área da cirurgia pediátrica. A conquista a coloca no seleto grupo de pesquisadores que se destacam em um ambiente altamente competitivo, reunindo alguns dos maiores cientistas norte-americanos e internacionais. Filha de peixe... Filha de Elson de Barros Gomes Júnior, cônsul honorário da Índia em Minas Gerais, Hannah pertence a uma família reconhecida por sua atuação nas áreas da educação, da medicina, da cultura e das relações entre Brasil e Índia. A seguir, vocês poderão perceber que Hannah não é dotada “apenas” para a Ciência. Ela fala sobre tudo e bem, conta curiosidades e um pouco da vida pessoal. Pena ela não atender pela Unimed, muito menos pelo SUS. Boa consulta a todos.
PS: logo após a entrevista, o cônsul Elson de Barros entrou em contato com ótima novidades. Vamos lá, em suas próprias palavras: “Outra pesquisa de Hannah, publicada numa revista científica bem renomada: Seminars in Pediatric Surgery! E ela passou a dar aula na Harvard Medical School, onde estudou anteriormente. Aula de técnica cirúrgica/sutura”. Comentários? E precisa?
Hannah, primeiro, explique teus nomes e sobrenomes, que parecem a própria ONU.
Realmente são muitos sobrenomes e uma mistura de culturas! “Ananda” e “Gomes” vêm da família do meu pai, cuja origem remonta a Goa, na Índia. Já “Bougleux” pertence à família da minha mãe e tem origem francesa. Meus nomes carregam, portanto, uma história de diferentes povos, culturas e trajetórias que, de certa forma, também refletem quem sou: brasileira, com raízes indianas, francesas; vivendo e construindo minha carreira nos Estados Unidos.
Onde você nasceu?
Nasci em Belo Horizonte e tenho muito orgulho de ser mineira! Cresci cercada pela cultura, pelo carinho e pelo forte senso de família que fazem parte da identidade mineira. Mesmo morando há muitos anos nos Estados Unidos, Belo Horizonte continua sendo minha casa afetiva, o lugar onde estão minhas origens, minhas lembranças e grande parte das pessoas que amo.
Mesmo tão jovem, você tem uma longa e resumida trajetória do Brasil aos Estados Unidos. Pode contar um pouco?
Cresci no Brasil e me mudei para os Estados Unidos aos 19 anos, levando comigo muitos sonhos e uma enorme vontade de construir um caminho por meio da educação, do esporte e da medicina. Foi uma trajetória de muito esforço, dedicação e perseverança.
Esporte?
Sempre joguei vôlei no Brasil, inclusive no Minas Tênis Clube e tive a oportunidade de continuar minha trajetória esportiva nos Estados Unidos enquanto cursava a graduação universitária e seguia a formação conhecida aqui como pré-med, a preparação acadêmica para a faculdade de medicina.
Ah! Chegamos à Medicina!
Depois, ingressei na Harvard Medical School, onde me formei em Medicina. Atualmente, estou no quinto ano da residência em Cirurgia Geral no Massachusetts General Hospital, um dos principais hospitais de ensino da Harvard Medical School. Paralelamente, realizo um pós-doutorado em pesquisa na área de Cirurgia Pediátrica no Boston Children’s Hospital, também afiliado à Harvard. Olho para essa trajetória com muita gratidão. Saí do Brasil muito jovem, com grandes sonhos e encontrei oportunidades que me permitiram unir três paixões: a medicina, a cirurgia e a pesquisa científica.
Mas você chegou a estudar no Brasil ou “só” nos Estados Unidos?
Minha formação médica foi realizada nos Estados Unidos. Completei quatro anos de graduação universitária, seguidos por quatro anos de faculdade de Medicina. É uma formação longa e exigente, mas extremamente enriquecedora. A residência proporciona uma experiência clínica e cirúrgica intensa, enquanto a pesquisa me permite trabalhar no desenvolvimento de novas terapias que poderão transformar o cuidado de pacientes no futuro.
O que é o NIH?
Sigla para National Institutes of Health, ou Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos. É a principal instituição pública norte-americana dedicada ao financiamento e à promoção da pesquisa biomédica e científica. O NIH apoia estudos realizados em universidades, hospitais e centros de pesquisa de todo o país, contribuindo para avanços na prevenção, no diagnóstico e no tratamento de inúmeras doenças. Muitos dos principais progressos científicos e médicos das últimas décadas tiveram apoio do NIH. Receber reconhecimento ou financiamento dessa instituição representa uma importante validação científica e uma oportunidade de transformar pesquisas inovadoras em benefícios concretos para pacientes e famílias.
É verdade que você ganhou um dos prêmios mais importantes dos Estados Unidos? Em que e por quê?
Recebi um importante reconhecimento do NIH pelo trabalho que desenvolvo em pesquisa de Cirurgia Pediátrica no laboratório do Dr. Dario Fauza, em Harvard. Nossa pesquisa busca desenvolver novas formas de tratar doenças congênitas e genéticas ainda durante a gestação, ou seja, antes mesmo do nascimento do bebê.
Como?
Utilizamos células-tronco e tecnologias avançadas de engenharia genética com o objetivo de criar terapias que possam ser administradas de forma minimamente invasiva, por meio de uma única injeção no líquido amniótico. A ideia é aproveitar a janela única do desenvolvimento fetal para tratar determinadas doenças precocemente, antes que elas provoquem danos irreversíveis.
A ficção científica não é mais ficção!
Essa área representa uma das fronteiras mais promissoras da medicina fetal. O objetivo não é apenas tratar uma doença, mas potencialmente modificar sua trajetória desde o início da vida. Embora ainda estejamos em uma fase de pesquisa pré-clínica, os resultados e o potencial dessa abordagem podem abrir caminho para transformar o futuro de milhares de bebês e famílias que convivem com doenças congênitas graves. Para mim, esse reconhecimento tem um significado muito especial, porque representa a confiança no potencial de uma pesquisa que une ciência básica, cirurgia fetal, terapia celular e inovação, sempre com o objetivo final de melhorar a vida dos pacientes.
O que é o MGH?
É a sigla para Massachusetts General Hospital, um dos hospitais mais antigos e reconhecidos dos Estados Unidos e um dos principais hospitais de ensino afiliados à Harvard Medical School. De forma bem-humorada, algumas pessoas brincam que MGH significa “Man’s Greatest Hospital”.
Com você, “Mulher Greatest Hospital”.
Faço minha residência em Cirurgia Geral no MGH com o objetivo de seguir, futuramente, uma formação especializada em Cirurgia Pediátrica. A experiência clínica e cirúrgica no hospital, aliada ao trabalho de pesquisa no Boston Children’s Hospital, permite que eu desenvolva uma formação integrada entre o cuidado direto aos pacientes e a busca por novas soluções científicas.
Como é a Cirurgia Pediátrica no Brasil e como está a mesma área nos Estados Unidos?
A cirurgia pediátrica brasileira é de excelente qualidade e conta com profissionais altamente qualificados, centros de referência e uma longa tradição no tratamento de doenças complexas em crianças. O Brasil possui cirurgiões pediátricos reconhecidos internacionalmente e uma grande capacidade de oferecer assistência especializada, apesar dos desafios relacionados às desigualdades de acesso e aos recursos disponíveis em diferentes regiões.
Mas... Nos Estados Unidos...
Nos Estados Unidos, além da excelência clínica e cirúrgica, existe um forte investimento em pesquisa translacional e em tecnologias emergentes, como terapia celular, edição genética, medicina regenerativa e cirurgia fetal. Essas áreas buscam levar descobertas realizadas no laboratório para o atendimento aos pacientes.
Um completaria a outra?
Uma das condições estudadas em nossa pesquisa tem potencial para ser desenvolvida também no Brasil. Estamos trabalhando para construir uma colaboração com o Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, com o objetivo de aproximar pesquisadores e instituições. No futuro, ampliar o acesso a essas novas terapias. Acredito muito no valor da cooperação científica internacional e na possibilidade de unir a excelência clínica brasileira à inovação desenvolvida nos grandes centros de pesquisa dos Estados Unidos.
Você pretende voltar ao Brasil?
Amo profundamente o Brasil e sinto muita falta da minha família, da cultura e da vida que deixei em Belo Horizonte, mesmo mantendo contato com minha família e amigos. Se, no futuro, surgir a oportunidade de atuar profissionalmente no Brasil, gostaria muito de retornar por um período com meu marido e meu filho.
Então, pergunta e desejo em suspenso!
Neste momento, minha formação e minhas principais áreas de pesquisa e especialização estão concentradas nos Estados Unidos. Meu desejo é continuar construindo uma ponte entre os dois países, colaborando com instituições brasileiras, compartilhando conhecimento e contribuindo para que avanços científicos possam chegar também aos pacientes no Brasil.
Você viveria na Índia?
Com certeza. A Índia é um universo à parte, um país de enorme diversidade, espiritualidade, história e riqueza cultural. Sempre que volto para lá, sinto que vivencio uma transformação pessoal. É uma experiência que amplia minha visão de mundo e me reconecta com minhas raízes familiares e espirituais. Cada viagem me faz enxergar a vida de uma maneira diferente. A Índia tem uma energia muito particular e, de certa forma, sempre sinto que retorno de lá como uma pessoa renovada.
Como Hannah, o nome da tua irmã, Sarah, se escreve com H de Harvard?
H no começo e H no final! Hahaha! Minha irmã, Sarah, sempre foi uma grande inspiração para mim. Ela também é médica e trabalha com cuidados paliativos no Brasil, uma área que exige enorme sensibilidade, humanidade e dedicação. Apesar de termos seguido caminhos profissionais diferentes, compartilhamos o mesmo compromisso com o cuidado das pessoas e o desejo de fazer uma diferença positiva na vida dos pacientes e de suas famílias.
O que você espera, profissionalmente, de 2027?
Em 2027, espero que nossa pesquisa avance ainda mais e que possamos aproximar as descobertas feitas no laboratório da aplicação clínica. Na ciência, usamos a expressão “from bench to bedside”, ou “da bancada para o leito”, para descrever o processo de transformar descobertas científicas em tratamentos reais para os pacientes. Meu objetivo é contribuir para que essas novas terapias com células-tronco e edição genética avancem para estudos clínicos e, futuramente, possam oferecer alternativas para doenças congênitas que hoje possuem poucas ou nenhuma opção de tratamento.
E pessoalmente?
Na vida pessoal, espero continuar cultivando minha família, acompanhando o crescimento do meu filho, vivendo novas experiências ao lado do meu marido e visitando Belo Horizonte com mais frequência. Depois de tantos anos de formação e dedicação profissional, também quero preservar o equilíbrio entre a ciência, a medicina, a família e as minhas raízes.








