Paulo Navarro | Entrevista com Ana Belumat



Entrevista com Ana Belumat. Foto: Gabriel Cabral

Lady in Satin

Antes mesmo de nossa entrevistada nascer, o poeta Ferreira Gullar já perguntava sobre ela: “bela, bela, mais que bela, mas como era o nome dela? Não era Helena, nem Vera, nem Nara, nem Gabriela, nem Tereza, nem Maria. Seu nome, seu nome era... Perdeu-se na carne fria, perdeu-se na confusão de tanta noite e tanto dia, perdeu-se na profusão, das coisas acontecidas”. Mas nós a achamos! O nome dela é Ana Belumat. A carne perfeita é quente e rabiscada, de tanta noite, tanto dia, tanto mar, tanta arte, tanta moda. Por falar nisso, alguém já escreveu que o mundo trata melhor quem se veste bem. Mas o que é vestir-se bem? Com a verdade! Somos por dentro o que confessamos por fora. Para outro poeta, Carlos Drummond de Andrade a roupa é uma "carta aberta para ser lida até por analfabetos". É uma extensão da identidade tão cara à Ana. Uma linguagem não-verbal, comunicando nossos valores, humor e personalidade antes mesmo de dizermos a primeira palavra. A roupa afeta a cognição, a confiança, a autoestima e até mesmo a produtividade. A maneira como você se veste comunica quem você é antes mesmo de dizer uma palavra. Ana Belumat se veste com seu tempo, com linhas tatuadas em um corpo que não para de falar, de traduzir uma parte na outra parte. Tatuagem que dá coragem pra seguir viagem, pra brincar no corpo feito bailarina, que se alucina salta e se ilumina; uma cicatriz risonha e corrosiva, marcada a frio, a ferro e fogo, em carne viva, como cantaria o antigo Chico. Corações de mãe, arpões, sereias e serpentes? Não! Cada tatuagem de Ana é carteira de identidade, CPF, passaporte para resistir e existir; reciclar materiais e memórias em "Versão brasileira, AIC São Paulo". Então, "tattoo you".

Ana, brevemente, apresente Ana Belumat ao nosso venerável e honorável público.

Sou mineira, nascida em Ipatinga, graduada em Arquitetura e Urbanismo pela PUC Minas e, hoje, artista visual. Meu trabalho conecta diferentes linguagens, como arte contemporânea, moda, fotografia e tatuagem, tendo como eixo temas como identidade, corpo, liberdade, memória e transformação. A arquitetura e a dança moldaram o meu olhar e seguem presentes na forma como percebo o espaço, o movimento e a organicidade. É desse encontro entre diferentes linguagens e experiências que meu trabalho se constrói.

O que restou de Ipatinga e de Arquitetura na artista visual?

De Ipatinga restou o olhar para dentro, para minhas raízes e para minha essência. Da Arquitetura, restou muito mais do que eu imaginava. O olhar para estrutura, proporção, composição e organização visual. E, principalmente, a compreensão de que os espaços influenciam a forma como vivemos, sentimos e nos relacionamos. Não abandonei a Arquitetura. Ela segue junto.

Corpo é linguagem 24h/24h? O que o teu fala, transmite?

Acredito que sim. O corpo comunica o tempo todo, mesmo quando não percebemos. Ele fala através dos gestos, da postura, da forma como ocupamos os espaços, das roupas que escolhemos vestir e até dos silêncios. O meu corpo fala sobre movimento, autenticidade, transformação e descobertas. Fala sobre alguém que está em constante mudança, mas que procura permanecer fiel à própria essência.

Por isso ele ser também matéria-prima?

Talvez seja por isso que ele seja tão presente no meu trabalho. Porque vejo o corpo não apenas como forma, mas como território de expressão, memória e identidade. O balé clássico faz parte dessa construção desde os meus três anos de idade. De alguma forma, ele me ensinou a perceber o corpo como linguagem muito antes de eu compreender isso conscientemente. Meu trabalho sem o meu corpo nada seria.

Que relação você faz entre destruição e ressurreição?

Não vejo a destruição apenas como fim. Muitas vezes, ela é o início de um processo de transformação. Acredito que algumas rupturas são necessárias para que algo possa se reconstruir de uma nova forma. Isso vale para objetos, para relações, para fases da vida e para nós mesmos. Grande parte do meu trabalho nasce justamente desse olhar. Do interesse pelas marcas do tempo, pelos vestígios, pelas cicatrizes e por tudo aquilo que carrega uma história. A destruição, para mim, não representa ausência de valor. Muitas vezes é ela que revela camadas que estavam escondidas e que permanecem dando sentido àquilo que somos. Nem tudo o que foi “quebrado” precisa ser consertado. Algumas coisas apenas precisam ser vistas de outra forma.

A Moda é um capítulo à parte ou fundamental?

Fundamental. Assim como a arte, a arquitetura e a dança, a moda faz parte de quem eu sou. Não existe uma separação entre isso, o meu trabalho e Ana Belumat. A moda está presente na minha vida desde muito cedo. Cresci acompanhando esse universo de perto através da minha tia, Bya Belumat, que construiu uma carreira nacional e internacional como modelo. Talvez por isso eu nunca tenha enxergado a moda apenas como estética. Pra mim, a moda é sobre identidade. E hoje ela aparece naturalmente em quem sou e em tudo o que faço, mas com mais propósito.

Ainda na Moda. Bastidores ou passarela?

Os dois. Sempre me interessei pelo resultado, mas me interesso ainda mais pelo processo. A passarela revela. Os bastidores constroem. A passarela tem brilho. Os bastidores têm verdade.

Qual tua definição de elegância?

Simplicidade. É fazer o bem, tratar as pessoas, a natureza e os animais com respeito e gentileza. Também acredito que existe muita elegância em viver com autenticidade. É ser quem se é. A roupa pode vestir o corpo, mas é o caráter que veste a verdade.

E a Fotografia?

A fotografia é uma extensão do meu olhar. Ela é uma forma de linguagem de muita sensibilidade, uma maneira de contar histórias e de se expressar sem precisar dizer uma palavra. E eu me identifico muito! 

Qual tua “tradução filosófica” para upcycling e slow fashion?

Pra mim, upcycling e slow fashion são convites para desacelerar e olhar de outra forma. Vivemos em uma cultura marcada pelo imediatismo, pela necessidade de pertencimento, pela produção acelerada e pelo descarte constante. Essas práticas propõem o contrário: mais consciência sobre o que produzimos, consumimos e escolhemos manter.

Em outras palavras, esvaziar os armários do consumismo?

O upcycling vai além da reutilização. Ele transforma o que já existe, criando novos significados para materiais e peças que poderiam ser descartados. Já o slow fashion questiona a lógica da quantidade e valoriza o tempo, os processos, a qualidade, a autoria e as relações humanas envolvidas na criação de uma peça. É uma forma de pensar a moda para além das tendências.

Bom lembrar aos humanos que a Terra não tem lixeira.

O planeta não suporta mais os ritmos acelerados de produção e consumo. São muitos os impactos gerados por esse modelo. Repensar essa relação deixou de ser apenas escolha estética e passou a ser necessidade. No meu trabalho, esses conceitos aparecem de forma autoral a partir de peças que carregam história. Não se trata apenas de criar roupas ou objetos, mas também de ressignificar materiais, memórias e narrativas.

Voltando à reciclagem e em busca do tempo perdido...

No fundo, o upcycling e o slow fashion falam muito sobre nós, sobre a forma como nos relacionamos uns com os outros, com as coisas, com o tempo e com o próprio consumo. Não acredito em mudanças radicais. Acredito em consciência. Se cada pessoa conseguir refletir sobre essas questões e incorporá-las à sua realidade, mesmo que em pequenas escolhas do dia a dia, isso já faz uma grande diferença.

Continuando a aula de inglês, o que é “Playing with the Lines”?

“Playing with the Lines” surgiu dentro do meu trabalho com tatuagem. A expressão significa, literalmente, “brincando com as linhas” e nasceu a partir de um estilo que me apropriei e desenvolvi ao longo dos anos: linhas livres, orgânicas e construídas de maneira intuitiva, no freehand.

À flor da pele.

A verdade é que esse olhar para as linhas já existia antes da tatuagem. Ele sempre esteve presente em meus desenhos, pinturas, na arte abstrata, na arquitetura e até na maneira como me relaciono com o corpo e o movimento. Por isso, o termo freehand surgiu na tatuagem, mas acabou se tornando algo maior. Uma síntese do meu processo criativo. Pra mim, as linhas não são apenas traços. Elas constroem narrativas, sugerem movimentos, se transformam em diferentes superfícies, revelam identidades e conectam diferentes linguagens do meu trabalho. No fundo, “Playing with the Lines” é sobre liberdade de criação.

Parabéns pela aula de português e de arte premiada em “Liberdade Enclausurada”. O que é? Grades de nuvens?

“Liberdade Enclausurada” é uma instalação que nasceu de uma reflexão sobre liberdade, escolha e autoconhecimento. A obra parte da ideia de que liberdade também é escolher a que se aprisionar. Muitas vezes somos limitados por medos, dores, crenças, padrões, expectativas e estruturas que carregamos ao longo da vida.

Liberdade... Instintos amestrados?

Por isso, a liberdade que me interessa não é apenas física. É uma liberdade interna, construída a partir da consciência e da responsabilidade pelas próprias escolhas, dos nós que decidimos cortar e daqueles que escolhemos manter. O corpo aparece como território simbólico dessa investigação. Um espaço onde habitam limites, desejos, conflitos, vulnerabilidades e possibilidades de transformação.

Em vez de delação, liberdade premiada!

Receber o Prêmio da Comissão Técnica da Fundação Aperam (instituição privada e sem fins lucrativos), com essa obra, foi muito especial porque ela sintetiza temas que atravessam a minha trajetória, tanto artística quanto pessoal: identidade, presença, liberdade e a complexidade de ser humano.

E a ilustradora Ana Belumat? Relatos, retalhos, “Retratos da Vida” como no famoso filme francês?

De certa forma, sim. A ilustração, pra mim, nunca foi apenas uma representação visual. Quando ilustro, não reproduzo apenas algo que vejo. Tento revelar algo que sinto, percebo ou imagino. Eu penso na vida. Foi exatamente isso que aconteceu em “Retalhos de uma permanência”, livro de Paty Barbosa ilustrado por mim. As imagens nasceram da escuta, da tentativa de transformar palavras, silêncios e emoções em presença visual. No fundo, acredito que toda ilustração é também um retrato. Muitas vezes, um autorretrato. Uma forma de existir no mundo.

“Meu trabalho não é sobre arte, moda ou tatuagem”. É sobre…

É sobre identidade. Sobre o corpo como linguagem. Sobre viver com presença e autenticidade em um mundo cada vez mais padronizado.

E 2027? Pode esperar sentado, deitado, dançando?

Pode esperar muito movimento, muita criação e conexões!