Sábado, 2 de maio de 2026
Mariana Duarte, linda como pastilhas de aniversário. Foto: Edy Fernandes
Bolo e brigadeiros
Em “Poema Sujo” (1976), Ferreira Gullar utiliza a expressão “pastilhas de aniversário, domingos de futebol” – que bem mais tarde ganhou linda música de Milton Nascimento – para evocar, através da memória, a infância e a simplicidade da vida em sua terra natal, São Luís do Maranhão. Essas imagens, tão banais quanto abstratas, representam o cotidiano afetivo e precário, que o eu lírico tenta resgatar do exílio na Argentina.
Brigadeiros e generais
“As ‘pastilhas de aniversário’ confeitos coloridos, como jujubas e confetes; os ‘domingos de futebol’ são símbolos da cultura popular e da inocência infantil. Memórias que surgem no poema para contrastar com a aridez do exílio e a tensão dos ‘anos de chumbo’ do regime militar. Elas fazem parte de lembranças domésticas - como cadeiras, garfos, pratos e o cheiro de comida - que o autor revisita”.
Generais gerais
Esta saudade/nostalgia/melancolia tem ar de outras primaveras, outros carnavais e de outro poema, "Meus Oito Anos", de Casimiro de Abreu, publicado em 1858/1859: “Oh! Que saudades que tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida, que os anos não trazem mais”. Ou, trocando em miúdos, “como era verde o meu vale, quando eu não sabia que minha história era mais bonita que a de Robinson Crusoé”.
Gerais e particular
Esta introdução é para anunciar o interessante texto, “As placas dos veículos”, de Leo Perez, engenheiro, cronista, apaixonado e saudoso admirador da Savassi, bairro que defende todo santo dia, na “AmoSavassi”. Assim como as placas de carro, as de rua também não são as mesmas. Eram lindas, em metal e alto relevo; tinham alma, história, como as de Paris que continuam as mesmas.
Michele Escobar, que não precisa de placa, nem de mais cores. Foto: Edy Fernandes
Particular e única
Por falar em Paris, na França também as placas de carro eram mais originais. Por exemplo, toda placa terminada em 75, era de Paris. Hoje, sabe-se lá que critério é usado, mas é bem menos charmoso. Daí voltarmos ao texto de Leo Perez: “Houve um tempo em que as placas dos veículos eram pequenos mapas. Parar num posto, na estrada, para um café era um exercício de geografia afetiva”.
Única e inesquecível
“No estacionamento do hotel ou na praça de uma cidade turística, as placas dos veículos nos contavam de onde vinham as histórias que ali desembarcavam. Bastava um olhar rápido para identificar quais regiões mais visitavam nossas montanhas. Ler “João Pessoa”, “Lavras Novas” ou “São Vicente de Minas” era o gatilho para uma viagem interna”. O que dizer então sobre uma placa de Recife, Salvador ou Porto Alegre?
Inesquecível e imortal
Voltemos ao léu e ao Leo: “Naqueles minutos de observação, a placa nos devolvia a lembrança de um ex-amor, a recordação de um antigo emprego ou o desejo de conhecer um destino novo. A placa Mercosul, implantada em 2018, silenciou estas vozes imaginárias. Eliminou-se o nome da cidade e do estado em prol de combinações numéricas infinitas, porém, nos deixou órfãos de identidade”.
Imortal e infinita
“Um projeto de Lei 3214/2023, do senador Esperidião Amin, propõe alterar o Código de Trânsito Brasileiro para trazer de volta o que nunca deveria ter saído: o município, o estado e a bandeira. O texto do PL já avançou na Câmara e segue a burocracia. Para os que temem o bolso, o PL não obriga ninguém com a placa atual a trocá-la”.
Shirlei Miranda, sem placa e cheia de charme. Foto: Edy Fernandes
Lança Perfume
*“Não haverá custos extras. A mudança valerá apenas para novos emplacamentos após a lei entrar em vigor”.
Esta alteração devolverá “a viagem” e o prazer ao observador de estrada.
“Você acredita que essa volta nas placas pode ajudar também na segurança pública ou o benefício é puramente afetivo?”.
Bom, já que Leo perguntou e ainda temos espaço, respondamos!
Segurança resolve-se de mil outras formas. O importante é exatamente o retorno afetivo.
E mais! As placas eram amarelas, lembram? Hoje são todas cinza. E nem todos os tons de cinza do mundo superam o solar amarelo.
Se nossa infância querida não volta mais, que pelo menos ressuscitem o charme das placas de antanho!










