Sábado, 19 de setembro de 2026
É normal ser Ana Carolina Albuquerque. Foto: Edy Fernandes
Um fracasso
Nas redes, um vídeo tragicômico. Não! É muito engraçado e até filosófico. Está na página Instagram, “olerodrigues”, de Lelê Rodrigues: “O Solteiro Sabor Casado. A vida moderna e a nossa geração. Humor, nostalgia e vida 30+”. O título: “A Internet transformou coisas normais em fracasso”.
Um normal
“A Internet não só distorceu o que é normal como transformou também preferências pessoais em sinais de fracasso. É normal passar o Réveillon em casa com a família. Não precisa estar numa praia, usando branco, segurando uma taça e fingindo que não está preocupado com quem vai dirigir na volta. Tem gente que pula sete ondas. Eu pulo direto para a cama”.
Os Normais
“É normal tirar férias e não viajar. ‘Mas Lelê, ficar em casa nas férias não vale a pena’. Vale sim! Eu pago a casa o ano inteiro, em algum momento tenho que usufruir do plano Premium. É normal não querer sair num sábado à noite, principalmente para um lugar onde você precisa gritar para conversar. Se eu preciso berrar: ‘Como é que tá tua mãe?’, aí não é encontro, é comunicação de dois pedreiros em obra diferente”.
Normais e naturais
“É normal repetir roupa, ela não é descartável. É normal ficar anos com o mesmo celular. É normal ter um hobby, sem transformar aquilo num trabalho. Você começa a criar plantas para relaxar e, três semanas depois, alguém pergunta: ‘Já pensou em vender mudas e posicionar isso no digital?’. Não, eu não quero posicionar minha samambaia no digital”.
Naturais e reais
“Eu quero molhar minha samambaia de vez em quando e torcer para não matar mais uma. É normal não viajar todo ano. É normal não viajar! É normal ter estria, celulite, nariz grande, boca fina. E vou dizer, muitas vezes é mais bonito que tentar corrigir tudo. Tem preenchimento que o lábio chega cinco minutos antes da pessoa”.
Reais e palpáveis
“Talvez nossa vida não esteja pequena, parada ou atrasada, Talvez ela só não esteja sendo filmada por um drone, com uma música emocionante e a legenda: ‘vivendo o meu propósito’”. Nuh! Quanta coisa para a gente refletir, por trás deste desabafo, concordam? Afinal, realmente, é normal que a vida não seja um filme, daí o Cinema e outras artes.
É normal ser natural como Bianka Paolla da Silva. Foto: Edy Fernandes
Palpáveis e saudáveis
Há coisa de 30 anos a vida era mais real. Você fazia fotos de você, da namorada, dos amigos, da família, de viagens, de coisas; com filme e máquina de fotografia. E tem gente que nem sabe o que é isso ou o que é uma máquina de escrever; escrever à mão, etc. As fotos? Saíam desfocadas e você só ia descobrir e lamentar dias depois do filme revelado e copiado em papel, numa loja especializada.
Saudáveis e saudades
As pessoas viajavam e escreviam cartas, cartões-postais, com letra bonita ou “de médico”, depois iam aos Correios, pegar fila, comprar selos, envelope, colar tudo, pagar, deixar com o funcionário ou jogar carta ou cartão em “buracos” numa parede de madeira, onde se lia: exterior, interior, nacional e vai saber mais o que. Era uma aventura enviar e receber correspondência que levava, no mínimo, uma semana para atravessar o oceano. Mas que prazer receber!
Saudades do futuro
Hoje, parece que quem viaja ou quem curte um show não é a pessoa, é o telefone celular. As pessoas veem, vivem a vida através do telefone. É no mínimo, ridículo! É uma exibição constante de status. A pessoa, antes de comer, fotografa o prato, a mesa, os talheres, taça, garrafa e já posta no Instagram para que amigos, conhecidos e gente completamente estranha pensem: “nossa, como ele/ela é chique, rico, descolada! Como tem bom gosto”. Tchau prazer de exclusividade e privacidade.
É normal ser normal, como Cibele Faria. Foto: Edy Fernandes
Lança-Perfume
*Hoje, além da burrice natural e da inteligência artificial, tudo é aparência. Caras, corpos e mentes fabricados, plastificados.
Tudo é aparência, exibição. Carros lindos cheios de gente vazia; roupas são apenas embalagens, como o “bife à milanesa que esconde uma carne ruim”.
Quer dizer, generalizar também é burrice. Claro que tem gente que ainda viaja e frequenta restaurantes por puro prazer, sem transformar a vida em circo ou fogueira das vaidades.
Mas a grande maioria parece manada, faz tudo igual, pensa igual, não sabe o que é um livro e só lê legendas de Instagram.
Quando surgiu a televisão, Chico Buarque escreveu: “E a própria vida ainda vai sentar sentida, vendo a vida mais vivida, que vem lá da televisão...”.
Hoje, a vida mais vivida é vista em telas de televisão, computadores e celulares.
Ter, possuir, consumir, engolir, pensar através de algoritmos, desperdiçar, aparentar, fingir, encenar, interpretar, “desviver”.
E, para terminarmos com mais música, quando a MPB também era mais real e inteligente, tem a lição do poeta Vinicius de Moraes, a seguir:
“O homem que diz ‘dou’ não dá, porque quem dá mesmo não diz”.
“O homem que diz ‘vou’ não vai, porque quando foi já não quis”.
“O homem que diz ‘sou’ não é porque quem é mesmo é ‘não sou’”.








