Sábado, 18 de julho de 2026


No céu, com Josiane Terra. Foto: Edy Fernandes

Vander Wonder

Em nossa humilde opinião - por merecimento e justa homenagem, em 2026 - uma data já passou despercebida e outra parece que também passará, ambas redondas, sobre a mesma grande pessoa, o cantor e compositor Vander Lee. Dia 3 de março ele teria completado 60 anos de vida. No próximo dia 5 de agosto, sua morte precoce faz 10 anos.

Vander e Deus

O talento de Vander Lee não é “samba de uma nota só”, não vem de uma música só, mas definitivamente, “Onde Deus possa me ouvir” (2003) é uma das canções mais bonitas de toda a MPB. Começa com uma pergunta muito atual e um tema crucial: “Sabe o que eu queria agora, meu bem? Sair, chegar lá fora e encontrar alguém, que não me dissesse nada, não me perguntasse nada também”.

Deus e os Seus

Está muito difícil sair e encontrar alguém com um silêncio cúmplice e solidário. O contrário é muito mais provável. As pessoas estão cada vez mais agressivas e hostis. Aprenderam nada com a pandemia e estão cada vez mais egoístas. Com toda a tecnologia da comunicação estamos cada vez mais isolados e sozinhos. Reflexo do país, da Economia, da Política e seus escândalos diários, da Rainha Impunidade, no Reino do Vale Tudo?

Seus e Meus

Vander Lee, em seu hino desesperado, só queria alguém “que me oferecesse um colo, um ombro, onde eu desaguasse todo desengano. Mas, a vida anda louca, as pessoas andam tristes, meus amigos são amigos de ninguém”. Falou tudo! Vida e pessoas loucas, tristes, sem rumo, sem perspectiva, com medo do amanhã. Pobreza virando miséria. Inflação e corrupção. Violência generalizada, principalmente contra as mulheres.

Meus Deus

“Sabe o que eu mais quero agora, meu amor? Morar no interior do meu interior. Pra entender por que se agridem, se empurram pro abismo, se debatem, se combatem sem saber. Meu amor, deixa eu chorar até cansar, me leve pra qualquer lugar, onde Deus possa me ouvir”. Isso, enquanto pudermos usar a palavra Deus. Como fez Gilberto Gil, em “Se eu quiser falar com Deus” (1981). Hoje temos que pedir a ligação a cobrar.


Nada banal, Luciana Amaral. Foto: Edy Fernandes

Meus Deuses

Continua Vander Lee: “Minha dor, eu não consigo compreender, eu quero algo pra beber, me deixe aqui, pode sair”. Mas como diria o clichê, não adianta chorar; afogar as mágoas e a tristeza porque elas aprenderam a nadar. Aí é cantar o velho Chico quando ele era bom, porque aqui a coisa tá danada, “muita mutreta pra levar a situação, que a gente vai levando de teimoso e de pirraça e a gente vai tomando que, também sem a cachaça, ninguém segura esse rojão”.

Deuses e aviões

E para homenagear Vander Lee, duplamente, em 2026, ainda temos mais um alento ou lamento: “Cada dia que passo sem sua presença, sou um presidiário cumprindo sentença, sou um velho diário perdido na areia, esperando que você me leia. Sou pista vazia esperando aviões. Sou o lamento no canto da sereia. Esperando o naufrágio das embarcações”.

Aviões e vampiros

E estamos todos esperando a banda, o bonde, Godot e cantando “Teatro dos Vampiros” da Legião Urbana: “Esse é o nosso mundo, o que é demais nunca é o bastante e a primeira vez é sempre a última chance. Ninguém vê onde chegamos, os assassinos estão livres, nós não estamos. Vamos sair, mas não temos mais dinheiro, os meus amigos todos estão procurando emprego. Voltamos a viver como há dez anos atrás e a cada hora que passa, envelhecemos dez semanas”.


Em clima supersônico, Junia Bethônico. Foto: Edy Fernandes

Lança Perfume

*Envelhecemos esperando também o Brasil ser o “País do Futuro”.

Continuamos bobos, manés e românticos como o mesmo Vander Lee.

“Românticos são poucos, românticos são loucos desvairados, que querem ser o outro, que pensam que o outro é o paraíso”.

“Românticos são lindos, românticos são limpos e pirados, que choram com baladas, que amam sem vergonha e sem juízo”.

“São tipos populares, que vivem pelos bares e mesmo certos vão pedir perdão”.

“Que passam a noite em claro, conhecem o gosto raro de amar sem medo de outra desilusão”.

“Meu amor, deixa eu chorar até cansar, me leve pra qualquer lugar, onde Deus possa me ouvir”.

“Minha dor, eu não consigo compreender, eu quero algo pra beber, me deixe aqui, pode sair. Adeus”.