Vamos todos morrer na praia: leia o texto de Eduardo Brandão


Para suavizar a coluna de hoje, Cristiane Araújo. Foto: Edy Fernandes

Morte em Veneza

A coluna de hoje é inspirada em impecável e triste texto de Eduardo Brandão. Expressa perfeita e desesperadamente o atual sentimento que milhões de brasileiros carregamos. No entanto, por excesso de Amor, Democracia e Liberdade de Expressão no Brasil, vamos amenizar o lado político e enaltecer o “filosófico” de “Vamos todos morrer na praia”.

Morte e Vida

“Vou parar de falar de política. Talvez estas sejam minhas últimas palavras sobre o assunto. Não por falta de convicções ou resignação intelectual, mas por uma razão muito mais amarga: o esgotamento da esperança. A política brasileira é um exercício de indignação, impotência e desalento. E a indignação cobra seu preço. A alma também envelhece”.

Morte sem Vida

O dia 25 de Outubro e suas “peculiaridades”, já não importam. O “novo tempo” será muito, mas muito mais do mesmo, o que dispensa perigosos comentários. Os mesmos protagonistas continuarão no poder, protegidos pelas próprias engrenagens que os preservam. “Os personagens permanecem incólumes; as instituições se desgastam; a sociedade paga a conta”.

Vida Severina

“O que verdadeiramente me atormenta é o tempo. Em 2030, estarei com 67 anos, quando o futuro deixa de parecer uma promessa inesgotável e passa a ser medido pela urgência dos dias que ainda nos restam. E não estou sozinho. Vejo meus amigos, companheiros de geração, igualmente cansados”.

Vida Morta

Amigos que passaram a vida acreditando no “País do Futuro”. E “hoje, carregamos a sensação devastadora de termos envelhecido à espera de um país que nunca chegou. Não foram apenas anos perdidos. Foram anos que deixamos de viver plenamente; consumidos pela expectativa de uma mudança que parecia sempre próxima e que, a cada novo amanhecer, se afastava um pouco mais”.


Para colorir o texto de hoje, Érica Drumond. Foto: Edy Fernandes

Morta e Desperdiçada

“Passamos todo o Século 21 combatendo aquilo que consideramos a degradação política e moral do Brasil. Vimos o ‘Mal’ consolidar uma estrutura de poder que, em nossa percepção, ultrapassou a disputa eleitoral e alcançou a própria consciência de parte da sociedade. Lutamos, denunciamos, discutimos, escrevemos, votamos, protestamos”.

Desperdiçada e Enterrada

“Acreditamos que a verdade prevaleceria; que as instituições resistiriam às tentações do poder e que a democracia seria capaz de corrigir seus próprios desvios. Talvez tenhamos cometido o mais humano dos equívocos: acreditar que a história caminharia em direção ao progresso. Mas a história não tem compromisso com nossas esperanças”.

Enterrada e Cremada

“O tempo, esse juiz silencioso e implacável, não devolve os anos sacrificados em nome de causas que não triunfaram. E há uma crueldade particular em perceber que podemos ter dedicado a melhor parte da existência a uma batalha cujo desfecho talvez nós não tenhamos sequer o privilégio de testemunhar”.


Para anestesiar o tema de hoje, Estela Drumond. Foto: Edy Fernandes

Lança-Perfume

*“Envelhecemos lutando. E, enquanto lutávamos, a vida passou. Não teremos mais a juventude para recomeçar”.

“Talvez nem a disposição para continuar. A reconstrução de uma nação exige décadas; a existência humana, entretanto, não admite prorrogações”.

“É essa a dimensão mais dolorosa da nossa derrota: não apenas a possibilidade de perdermos o país que sonhamos construir, mas a certeza de que estamos perdendo o tempo que nos permitiria vê-lo reconstruído”.

Em 2030, “temo que o Brasil se assemelhe a uma embarcação que atravessou sucessivas tempestades sem jamais encontrar um porto seguro”.

“Uma nau exaurida, com o casco ferido, as velas rasgadas e a tripulação dividida entre os que ainda acreditam na travessia e os que já não distinguem o horizonte.

“E nós, que durante tantos anos remamos contra a correnteza, talvez já não tenhamos forças para alcançar a margem”.

“Há uma tragédia silenciosa em chegar ao entardecer da vida e descobrir que a pátria pela qual se lutou continua sendo uma promessa adiada”.

“Não é apenas uma derrota política. É uma espécie de exílio dentro da própria terra”.

“E, se existe algo mais doloroso do que perder a esperança no presente, é olhar para os filhos e netos”.

Olhar “e perceber que talvez lhes estejamos deixando como herança exatamente aquilo que passamos a vida tentando combater”.

“Sinto muito por eles. Profundamente. Porque nós ainda tivemos o direito de sonhar com outro Brasil”.

“Receio que eles herdem um país onde até o sonho tenha se tornado um luxo”.

“Ao fim e ao cabo, talvez seja esse o destino da nossa geração”.

“Assistir, impotente, ao naufrágio das próprias esperanças, enquanto o tempo recolhe, uma a uma, as forças que nos restam”.

“E, quando a última onda finalmente alcançar a areia, talvez não haja vencedores entre nós”.

“Apenas os destroços da nau chamada Brasil e os corpos de uma geração que passou a vida inteira tentando salvá-la. Vamos todos morrer na praia”.

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