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28/04/2011 - As flores de plástico não morrem, mas, mordem e matam

Walter Navarro

As flores têm cheiro, gosto de morte e a dor vai fechar esses cortes.

Freud, salvo engano, dizia que o homem só não encara três coisas: o sol, a própria morte e o sexo da mulher. Não sou chegado em sol e muito menos na própria morte, mas, aplaudi a trinca temeridade.

Começou por minha coleção de sacolas de plástico.

E não gosto de plástico ou borracha. Podem durar milênios no mar, mas são chatos de colar e pintar.

Toda boa embalagem vira relíquia de Machado de Assis. Por isso, sou fã, em todos os formatos, materiais e temas.

Por Kate e William, amanhã, procurei e achei, nos baús de Barbacena, a coleção de sacolas de plástico que vai continuar, principalmente agora, porque vão entrar em cruel extinção.

Minha primeira Europa foi no ano do casamento de Diana e Charles, dezembro de 1981. Comecei por Londres. Seis meses depois, os ingleses ainda comemoravam o Casamento do Século... Mal sabiam o final da história...

Comprei um walkman, Sanyo, que só tocava fitas-cassete (lembram?), daqueles gigantescos, os primeiros, pesados; quase um tijolo. A trilha sonora de Londres foi o disco “Almanaque”, do Chico Buarque. Até hoje aquelas músicas tem cheiro de Tâmisa.

A sacola do walkman ilustra a crônica de hoje.

Nela, há um pedaço roído de outra sacola, da cerveja Heineken, com pinta de free-shopping.

Além das duas, outras legais da coleção são da loja de discos, Breno Rossi; outra do Vaticano (livro sobre Michelângelo) e várias do falecido (por um incêndio) shopping Eldorado, em Campinas; onde comprei a maioria de minhas memórias fonográficas, logo, afetivas e de vinil.

Guardava todas, numa espécie de insalubre, escuro e sujo depósito, em Barbacena, junta e jumentamente com outras tralhas e traças queridas.

Procurando outra coisa, achei as belas sacolas, devidamente atacadas por ratos. Mesmo quem não procura acha. Claro que os ratos devoraram mais facilmente as sacolas brasileiras. Assim como as ratas devoram meu coração.

A de Diana & Charles foi a menos avariada.

Para matar os roedores comprei veneno, pequenos cilindros na cor rosa. Mais tarde soube que, para atrair os ratos, o veneno é feito com o “perfume” da xoxota das ratas. Que ironia! O cara vai procurar amor, prazer e acha a morte.

Como a bizarra notícia que li, semana passada, sobre uma Lucrécia Borgia que envenena com outro tipo de taça e vinho: “Mulher passa veneno na vagina para matar marido durante sexo oral. Fato teria ocorrido após uma briga entre o casal... Em São José do Rio Preto, em São Paulo”. Pelos venenos de Baudelaire! Pode uma coisa dessas?

O homem procurou a polícia e contou que, na hora H, desconfiou das intenções da mulher ao sentir o cheiro do produto.

Pensando bem, não deixa de ser uma forma agradável de se morrer. Jacques Brël cantava que queria morrer entre os seios de uma gorda!

Eu morri, mais uma vez; terça, à noite, de forma bem mais cruel, mas, tenho vergonha de contar como.

No livro/filme “O nome da Rosa”, frades morrem misteriosamente. No fim, o “detetive” (Sean Connery, impecável como sempre) descobre que foram envenenados. Todos que liam um “perigoso e diabólico” livro (Facebook) morriam horrendamente. Porque, ao virar as páginas envenenadas, levavam a mão à língua para umedecer os dedos e repetir os gestos até a dose fatal.

Bem feito! Detesto quem lambe meus livros e revistas! Vou passar veneno também nos jornais porque, outra coisa irritante é a criatura que lendo, desmonta o jornal, transformando-o num “embrulho de manga”.

É. Nem só as flores têm cheiro e gosto de morte; ratos, homens e leitores incautos que o digam!

Minha estreia na Europa foi no casamento de Diana e Charles. Minha mais recente, não a última, please, foi no mesmo ano e na mesma cidade em que Lady Di morreu: 1997; Paris.

Por acaso passei pela ponte de L’Alma, onde aconteceu o acidente. Na saída do túnel ainda havia flores pra ela.

Amanhã, não vou acordar de madrugada para ver o casamento do filho do “Casamento do Século”, só faço isso na Copa do Mundo, Olimpíadas e Fórmula 1. Mas, torço para que sejam felizes infinitamente enquanto durarem.

Só aconselho William a não ir com muita sede ao pote. Que, para ler, não molhe seus dedos nas úmidas pétalas de Kate; que não morda suas róseas partes e que, principal e romanticamente, não tome chá de OB e obrigue Kate a passar pelo bidê.

Se um piano não cair sobre mim, volto a Londres e Paris, mês que vem; como nasci; sozinho, gordo e babaca, mas, aguardem outras sacolas, merci.

PS: Voilà, c’est fini.