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14/04/2011 - Ainda não foi desta vez que conheci os Estados Unidos

Walter Navarro


Yes, porque, assim como Marselha não é a França; Miami não é os EUA. Deve ter sido lá que o David Bowie compôs “This is not America”. Miami é um misto muito quente de Brasília, por causa dos blocos; São Paulo e Hong Kong, devido às torres; Rio de Janeiro e Riviera Francesa, because das atlânticas e mediterrâneas praias; Havana, Cuba porque é tão óbvio que não vou perder tempo explicando e Juiz de Fora, não sei como, eu devia estar bêbado.

O primo Paulo Navarro disse a frase mais inteligente e engraçada da viagem: “Por isso é bom sair do Brasil, mesmo por poucos dias, pra ver que Belo Horizonte não é a realidade”.

É verdade. Quem conhece Miami ou Nova York, Paris, Londres etc, descobre que o Brasil é cronicamente inviável, isso aqui nunca vai dar certo. Miami tem a mesma idade de Belo Horizonte e tem mais de 10 milhões de habitantes e 12 milhões de turistas/ano. Orlando recebe 30 milhões/ano e Las Vegas, 40. O Brasil inteiro, quando atinge cinco milhões/ano brinda com caipirinha; uma vergonha!

Andam dizendo que voltei americanizado. Shit nenhuma; voltei dolarizado. Só penso em dólar. Precisavam ver minha cara e a da trocadora do ônibus, ontem, quando abri a carteira e só tinha notas verdes e moedas estranhas. Tive que viajar de graça...

Nem sei falar mais brasileiro. Por falar nisso, Miami tem vários prédios, lojas e lugares com nomes franceses, uma região toda em art-déco, mas, ninguém fala francês, claro, e meu inglês tá de dar nojo em imigrantes mexicanos. Todavia, não morri de fome e andei tanto sozinho quanto de limusine com o grupo do qual serelepemente fazia parte e arte. Espanhol - a primeira língua de Miami - não consigo falar nem em portunhol, mas, dá pra entender os mil sotaques, principalmente o cubano. Aliás, Miami é simpática, exatamente pelos cinco milhos de cubanos, exilados de Fidel ou filhos de fugitivos. Até a TV tem metade dos programas em inglês e espanhol, assim como jornais e revistas.

Miami é linda, rica, ensolarada e deslumbrante. Por isso voltei mais bonitinho, ordinário, vermelho, pobre e deslumbrado.

Miami é estranha como a primeira Coca-Cola.

Esta crônica tá meio solta porque foi escrita na última hora, ontem, em 40 minutos. Ela deveria ter sido enviada ao jornal de manhã, mas...

Não tive tempo de escrever uma linha desde sábado. Passeio de barco, compras, visitas, restaurantes de luxo e meu olhar de supremo tarado na piscina do hotel ou no marzão em frente; não me deixaram trabalhar. Muito menos os vinhos, as deliciosas cervejas e o whisky doze anos do Humberto Alves Pereira. E confesso que não me esforcei, apenas rabisquei vastas emoções e pensamentos imperfeitos num bloquinho, porque do meio do mundo prostituto só amores guardei ao meu charuto...

Por exemplo, eu ia começar pelo começo.

Assim: depois de comer uma capa da Playboy, como pegar barangas? Depois do brioche, como se empanturrar de pão dormido? Depois de Paris, como apreciar Garanhuns? Depois de Miami, o que fazer na Barra da Tijuca? Sei que caviar todo dia enjoa e que o melhor lugar do mundo é aqui e agora, mas, sem ofender, depois de viajar na primeira classe da American Airlines, como engolir os biscoitinhos e amendoins da Gol?

Poderia também, começar pela chegada ao aeroporto em vôo direto e a maior dura na alfândega, só porque cheguei com uma sacola do free shopping de BH e minha cara de quem mata crianças no Realengo, Rio de Janeiro. Os canalhas me cobraram dez dólares de imposto sobre cigarros americanos que comprei no Brasil, pode?

E olha que, antes de pegar três filas de identificação e controles, li enorme frase escrita com flores, num dos corredores da morte: “All we need is Love”. Aqui ó! Cheguei cheio de amor pra dar e a polícia só queria documentos e respostas. Perguntaram o que tinha nas malas e eu: “Além das cuecas puídas, Love, Love e Love!”. Abri minha camisa Lacoste, mostrei o peito cabeludo, apontei o coração e completei: “Aqui também, no fundo deste peito calado e desafinado também bate um coração vagabundo e cheio de Love...”. Não adiantou, mas, me deixaram entrar como mais um Scarface cucaracha borracha y loca.

Estranho, a caminho do hotel, todas as placas eram em inglês, como as lojas no Brasil.

Verdade, os prédios lá não têm o temido 13º andar. Instalei-me no último, o 24º..., numa suíte super bacana (2407) do Solé on the Ocean Hotel. Deu até pra cuspir sementes de uva no Atlântico e ver Cuba lançando foguetes.

PS: Semana que vem conto mais. Kisses in the ass.