Walter Navarro
Nos anos mais antigos do passado, bem antes da primeira viagem ao exterior (1981), rodei o globo terrestre, parando-o com o dedo indicador. Suculento passatempo. Onde meu dedo parasse “seria” meu primeiro destino. Ainda bem que ele não apontou um oceano, nem a Líbia, mas, uma cidadezinha nos Estados Unidos, chamada Cedar Rapids, Iowa.
Nunca fui lá, mas, um dia vou, prometo a mim mesmo. Só não será a primeira, enganando a mim mesmo.
Já estive nos EUA duas vezes, em trânsito. A primeira, voltando de Paris, foi traumática. Sem visto, eu e apetitosa belga fomos recepcionados pela polícia, na porta do avião que, depois de pegar nossos passaportes, colocaram-nos, durante umas sete horas, num “aquário” gigante, com 20 vietnamitas famintos. Ainda bem que não eram canibais, pois avançaram nas pizzas gentilmente servidas pelas autoridades, como se fosse Bolsa Família. Não sobrou um pedaço sequer pra nós. E eu com uma fome de devorar acelga. E belga também.
Bom, amanhã, a convite (boquinha) da American Airlines, vou me desvirginar dos EUA, penetrando Miami por cima. Eu poderia estar indo pra Barra da Tijuca, mas, detesto genéricos.
De cavalo dado não se olha as penas. Assim, ano passado, também a convite (boquinha menor) da AA, assisti à pré-estréia do filme “Amor sem escalas”, com meu sósia, George Clooney e aquela gostosa da Vera Farmiga, que bunda!
Aprendi com George a arrumar malas e ganhar tempo nos aeroportos. Por exemplo, sapatos sem cadarço são mais fáceis de tirar e calçar na hora de ser revistado. George me ensinou também a pegar mulher nos bares dos hotéis. Terei sido um bom aluno? Veremos...
A primeira coisa que quero ver em Miami é a Estátua da Liberdade, só pra repetir a frase do Woody Allen, que com tanto amor filmou aquela cidade: “Minha vida sexual anda tão fraca que a última mulher que penetrei foi a Estátua da Liberdade”.
Por falar em Woody e solidão a dois, domingo, revendo mais um clássico rodado em Miami, “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, anotei esta frase sobre relacionamentos amorosos, “Meu irmão acha que é uma galinha”. “Por que você não o interna?”. “Porque preciso dos ovos...”.
Voltando ao assunto, adoro fazer bonecos de neve, mas, foda em Miami, nesta época, é o inverno. Vou ter que levar até minhas galochas. Pelo menos vou poder, também pela primeira vez, esquiar.
Ah! O Hyde Park! Perdão, o Central Park! As charretes de lá são iguaizinhas às de Tiradentes. Tão romântico...
Se der tempo ainda quero conhecer um pouco das Rochosas, Beverly Hills, Broadway, Hollywood...
Será que vou trombar com o Horatio Cane (Chico Caruso), astro de CSI Miami? Quero não, prefiro a Natasha Henstridge. Até pelada!
Quero também passear nos típicos táxis amarelos com direção no lado direito. E é MoMA ou MoMO, o museu de cera?
E os cassinos coloridos onde o Frank Sinatra cantava? E o “Breakfast at Tiffany’s” na 5ª Avenida? Não sei como pude ficar tanto tempo sem Miami.
Meus amigos disseram que é como o Saara, no Rio e a rua 25 de Março e Galerias Pajé, em São Paulo; o paraíso das compras.
Já fiz minha listinha. Diz que lá tudo tá mais barato. Já com saudades do Brasil, vou trazer uns CDs de samba e bossa-nova, muito guaraná, feijoada em lata e goiabada. Tudo importado! Chique de com força! E ainda levo rapadura, bananinhas, umas Skol e miniaturas dos profetas do Aleijadinho pra trocar favores sexuais com as nativas...
Pra mulherada vou trazer muitos creminhos, loções e poções da Victoria’s Secret. Aí, chegando aqui, esvazio os frascos e encho de Avon, elas vão nem perceber.
Rapidinho. Volto terça; JFK/Confins, sem escalas.
Depois de Miami, quero ir pegar uma praia, pra abater umas ratas... Tô precisando de mar; de umas ondas pra tirar o baixo astral e o olho gordo.
Será que vou poder entrar na Casa Branca e conhecer a Sala Oral, melhor, Sala Oval?
Claro que, pra exercitar o lado turístico, quero também fotos em frente ao Capitólio e à estátua do Lincoln.
Pena não poder entrar em Guantánamo, pra traçar umas cubanas exiladas sem porvir.
E diz que Miami venceu o Minnesota e assume a vice-liderança do Leste. Nem sabia que tinha futebol em Miami. Vai ver é mais um episódio de Miami Vice.
Por mim, pegando uma Miami Bitch já tá de bom tamanho, só preciso comprar uns euros porque meu passaporte chegou de Brasília com um visto só até 27 de março de 2021.
PS: Tá tudo muito bom, tá tudo muito bem, mas, mesmo lá longe, não vou esquecer que, dia 11, faz 10 anos que meu pai foice e foi-se. E foi pra Miami não.