Walter Navarro

Hoje eu ia falar tudo o que penso, realmente, sobre Inhotim. Ia fazer um "desenho" com lápis de cor. Mas, não vale a pena. Aí ia contar sobre o dia em que deixei de ser um NET pra ser SKY. A NET, grande campeã dos Carnavais do Procon, me aprontou mais uma. Ameaça desligar meus canais da TV a cabo por falta de pagamento do mês de fevereiro. Detalhe; há milênios, pago a NET com débito automático... "Esqueceram de mim", a NET "esqueceu" de debitar o valor e eu é que pago o pato. Outro: deram-me um prazo de até quatro dias para o envio de um segundo boleto a pagar, por e-mail... Quatro dias! Uma semana depois, nada! Ah! E pagar o "indevido" durante o Carnaval!
Por essas e muitas outras eu ia dar umas bordunadas de Aritana na NET e comparar seus serviços àquelas coisas "made in China"... "Made in Paraguai...".
Eu ia fazer tudo isso, mas prefiro falar sobre um amigo "made in Uruguai" que não mora mais aqui, que deixou de ser um NET e essa vida louca bandida e cheia de "atrações" para sempre.
Sábado de Carnaval, fui acordado por outro amigão, Tomás Mesquita, com a notícia da morte de Jorge "Rata" Rattner; o favorito, esplêndido e vitorioso chef; tão uruguaio e gente fina como seus sócios, Fernando Motta e o mesmo Tomás; nos melhores restaurantes de Belo Horizonte.
Rata morreu como o brincalhão Vadinho, de "Dona Flor e Seus Dois Maridos"; fulminante infarto, num sábado de Carnaval, na Bahia. Longe dos amigos.
Não vou lamentar a morte apenas do chef, mas a do "chefia", a do amigo, de quem só consigo me lembrar, na forma de contagiante bom humor e generosidade.
Rata era aquele tipo de grandalhão com coração de criança. Parecia um Aritana fora de forma, um Obélix depois da dieta forçada; tropeçando nos astros desastrado...
Vou guardar dele a lembrança de risadas e noites intermináveis em torno de copos e taças. Na última dessas noites, ao meu lado, Rata, por motivos de saúde, só bebeu uma quase sem álcool e francesa Sidra.
Mesmo assim, ele sorria, contava coisas e me chamava de Waltinho com seu indefectível sotaque. Aliás, certa feita, em Ouro Preto, no intervalo de um jantar que preparava, ele, vestido de chef, sentado num caixote, contou uma anedota que me arrancou gargalhadas. Foi quando completou: "Waltinho você é o único que ri das minhas piadas porque as pessoas não entendem meu português...". Foi na inauguração do Museu do Oratório. A situação ficou ainda mais bizarra porque, enquanto eu e Rata ríamos; no salão, novos inconfidentes mineiros, bêbados, gritavam "Abaixo São Paulo, abaixo o Rio de Janeiro, viva Minas!". Sobrou até pro Ziraldo que, segundo os rebeldes com ou sem causa, só saía do Rio de Janeiro, e vinha a Minas, pra tirar dinheiro do governo mineiro com seus mirabolantes projetos culturais...
Rata, Motta e Tomás fizeram exatamente o contrário, "optando entre o inseto e o inseticida".
Deixaram a terra natal, adotaram Minas, venceram em Minas e ensinaram os mineiros que a vida não se resume a festivais de torresmo, feijão tropeiro, linguiça e couve ao molho pardo. Eles ensinaram Belo Horizonte a comer e beber bem.
Eu também aprendi e continuo aprendendo com este Trio Ternura e, sinceramente, com eles, nunca lamentei a famigerada Copa do Mundo de 1950, muito menos o nojento gol daquele bobo, feio e fedorento Gighia...
Em Tiradentes, numa destas mostras de cinema, empolgados por Baco e Eros, eu e Rata até disputamos a mesma mulher... Aquela ele perdeu... E sua aula particular do sugestivo "puchero" entre enormes panelas na cozinha do La Victoria? E seus deliciosos aniversários nos "porões" do A Favorita?
Antes de chegar ao Brasil, a vida não foi batatinha para Rata, não... Passou por, e venceu poucas e boas... Em Belo Horizonte, na maioria das vezes, nossos encontros eram uma festa, mesmo eu não sendo amigo dos mais íntimos, o que nunca me impediu de passar por muitas e ótimas em seus restaurantes, em seu "clean" apartamento, algumas viagens e vários encontros.
O Uruguai só entrou no meu minúsculo mapa mundi depois de conhecer estas três peças.
Os vinhos e cervejas uruguaios também.
Vai ser estranho nunca mais vê-lo nas mesas do A Favorita, Splendido ou La Victoria. A grapa de domingo não será tão libertadora. Naquelas mesas está faltando ele e a saudade dele já começou a doer.
Dizem que, na hora fatal, estava lendo um livro... Qual terá sido a última palavra a entrar nele?
PS: Tomara que tenha sido "paz". Ou então uma coisa bem engraçada como "tenho uma atração fatal pela tua clavícula...".