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14/01/2010 - Beijos, abraços e carinhos partidos

Walter Navarro


Tinha uns 47 anos que eu não ia ao cinema e por vários motivos. 

Primeiro porque não posso parar o filme pra ir até a geladeira, depois porque, mesmo se pudesse, salas de cinema não têm geladeira. Não posso fumar, não posso deitar, nem esticar as pernas. E tem mais: barulho de trogloditas devorando pipoca, abrindo papel de bala e falando baixinho "pra não atrapalhar o vizinho". Resumindo, é preguiça mesmo.

Mas aí, alguém me recomendou o novo filme do Almodóvar, "Abraços Partidos", e fiquei tentado.
Fui.

Mais exatamente na terça-feira, às 16h40. Vejam se é possível. Isso é horário? Um cara sério como eu indo ao cinema às 16h40? 

E fui a pé. Num calor de derreter camelos constipados. Cheguei cedo, 40 minutos antes. Fiquei lá, de bobeira, gastando preciosos minutos como se nada valessem...

Tomei um refri. Fumei os cigarros dos condenados. Entrei na livraria do complexo. Vi livros legais, como "A Elegância do Ouriço", mas comprei nenhum, porque o que eu queria mesmo era uma geladeira, um ar-condicionado, ventilador.

Adentrei a sala. Quase dormi, mas duas gostosas chatas e duas velhas ainda mais chatas falavam sem parar ao meu lado. E um casal "speaking" baixinho e abrindo balas atrás de mim...

Comecei a cantar mentalmente, aquela beleza do Toninho Horta: "Sabe, eu não faço fé nessa minha loucura e digo: eu não gosto de quem me arruina em pedaços e Deus é quem sabe de ti e eu não mereço um beijo partido...".

Começam as propagandas, os chatos se acalmam. Trailer que gosto mesmo, só um, o do francês "Coco antes de Chanel". Esse quero muito ver.

O filme começa até bem, com o personagem cego apalpando os suculentos seios de uma loura. Como o Carnaval tá chegando, me deu vontade de cantar: "Mamãe eu quero mamar", mas me contive porque Almodóvar boicotou as picantes cenas de sexo... Um desperdício de loura espanhola!

Começa o filme.

Estranho... Alguma coisa não estava ao meu gosto. Por exemplo, Penélope, aquela Cruz que eu adoraria carregar, não está tão bonita como em "Vicky Cristina Barcelona". Logo descobri o motivo.

Que os partidários e correligionários me perdoem, mas Almodovar, gay que é, não aprecia o belo sexo, claro. Logo, não sabe filmar amores heterossexuais... Mas, também não precisava deixar a Penélope com cara de quem jogou pedra na Cruz... E ainda arruma dois caras feios pra transar com ela. O menos feio, Lluís Homar, é a cara do Sting com uns 89 anos de idade! Lluís com dois "l", vê se pode... Estes espanhóis são loucos! E ainda mata a Penélope Charmosa, pronto, contei o final infeliz do filme. 

Relações heteros não combinam com Almodóvar. O cara é bom falando tudo sobre a mãe dele. Eu sempre fico esperando entrarem em cena mulheres histéricas e lésbicas à beira de um ataque de nervos ou o Antonio Banderas vestido de Zorro cor de rosa, com a bunda de fora, chicoteando o Alexandre Frota vestido de Sargento Garcia e sodomizando um Lulu da Pomerânia... 

No mais, o filme é bom. Não é nenhuma Brastemp como me contaram, mas é sério e tem um tema legal, que me anda muito caro ultimamente e puxando outro trecho do Toninho Horta: "Não se fala mais nisso, eu sei, eu serei pra você o que não me importa saber. Hoje não passa de um vaso quebrado no peito e grito: olha o beijo partido...".

É o famoso e cruel "broken heart", a separação da mulher amada. Quando é mais indicado cortar que rasgar porque dói menos, mesmo equivalendo a um terremoto no Haiti, tão ligados?
O Haiti é aqui, no vaso quebrado no lado esquerdo do peito!

O nome original do filme "Abraços Partidos" é "Los Abrazos Rotos"... E roto é esfarrapado, o porco falando do toucinho... Roto, molambo, andrajo, podre, acabado, roído, puído.

O filme tem amores brutos e "perros", prostituição, vingança, traição, separação e um monte de coisas partidas que, como diz o preconceito, quebrou não tem mais jeito. Nem com minha cola Tenaz Extra. 

Parece que não, mas gostei do filme, se não saiu de cartaz, como o "Bastardos Inglórios" que perdi, recomendo. Principalmente porque o ar-condicionado da sala funcionou legal.

E tem Penélope Cruz com os peitos lindos de fora e imitando Audrey Hepburn, cena que só ficaria mais perfeita com Billie Holiday cantando "Speak Low", assim, no meu ouvido: "Time is so old and love’s so brief. Love is pure gold and time a thief".

PS: O sanduíche que comi, faminto, depois do filme, me emocionou mais. No mais, entendo muito mais de beijos, abraços e carinhos sem ter fim que o Almodóvar. De beijos, abraços e carinhos partidos também...