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20/01/2010 - Vend. Apart. em Nova Friburgo com vista para o mar

Walter Navarro

Mar de lama! E não é Brasília não! É, minha gente, “a dor da gente não sai no jornal”... Não adianta tomar Dorflex. Cura nem cotovelo...

Melhor tomar Doril e sumir...

Tenho uma amásia em Teresópolis... Roberta... Ela me ligou e disse: “Walter, tô molhadinha...”. Calma, esta introdução é só pra falar que brasileiro respeita nada. Já contei pra vocês sobre a morte do Ayrton Senna. Conto de novo. Eu estava em Paris, vendo a corrida na casa de um amigo francês, que trabalhava como segurança de vôo na Air France. Naquela época, 1994, a França já expulsava imigrantes. Meu amigo Nicolas (não, não é o Sarkozy) era a “babá” deles...

Ele foi para a África e ficamos em sua casa, tomando todas. Até esquecemos a corrida. Tanto que o próprio Nicolas ligou pra avisar que Senna tinha morrido. Comoção mundial. A Internet engatinhava. Víviamos do correio. Durante uma semana, recebi as cartas mais baixo astral; todo mundo chorando e lamentando a morte do campeão. Na semana seguinte começaram as piadas: “O que é um monte de caixão, um sobre o outro? A ‘senna’ acumulada... Qual foi a última coisa que passou pela cabeça do Senna? O muro...”. E por aí ia...

Uma semana depois, com a lama secando e a poeira da lama baixando, já dá pra ficar indignado e ver os outros lados da catástofre; inclusive o pitoresco...

Dizem que a região serrana do Rio tá igual à piscina do Minas Tênis Clube, um canjão: cheia de galinha velha e pinto morto...

Nas tragédias aparecem os heróis, os solidários e os canalhas. Saques eu até entendo, tá todo mundo desesperado, então, é de quem chegar primeiro. Agora, sacanagem foi aquele cara, salvo engano funcionário da UERJ, flagrado levando doações pra casa dele em carro oficial... É de doer, né?

E a doação da embaixada norte-americana? US$ 100 mil... Tem certeza de que não vai fazer falta, Obama?

E a nova presidenta eleita, Erenice Temer da Silva, dando risada, com o desgovernador Serginho Cabralzinho Filhinho, depois de chorar suas lágrimas Lacoste, junto aos infelizes. Dá pena! Pena de 30 anos de cadeia!

Erenice cedeu uma encosta de R$ 100 milhões... Não vai fazer falta pro mensalão? Sim, porque de lama a presidenta entende...

Esta gente merece substituir Tântalo e Sísifo nos mármores escaldantes das profundezas do Tártaro! Esta gentinha merece o destino de Cadmo e Harmonia...

E os alimentos não perecíveis? Adoro esta palavra... Perecíveis... Só perde para população ribeirinha e hortifrutigranjeiros...

Por falar nisso, cadê a potência que o ex-presidente – como é mesmo o nome dele? – tanto alardeava? O Brasil, além de não prever o desastre, sabe nem socorrer as vítimas... Na Austrália, enchentes parecidas mataram pouquíssimas pessoas. O Brasil, com números africanos e sul-americanos, já tá chegando às mil vítimas... Se não fosse a solidariedade do povo e os voluntários, os mortos seriam muito mais. Estratégia do governo? Só em 2015! E olha que todo ano é a mesma coisa...

Voltando aos não perecíveis também vou doar algo para o Rio e sul de Minas. Só não sei do quê mais precisam agora.

Foi legal ver toneladas de alimentos, roupas e material de limpeza doados. Mas, acho que deveríamos enviar outras coisas, como livros, filmes e CDs, afinal de contas, a gente não quer só comida, né?

Mas, amigos, cuidado com o que vocês forem mandar tá? Nada de filmes-catástrofe como “Titanic”, “Terremoto”, “O Inferno de Java”, “Os Sobreviventes dos Andes”; nem documentários sobre o Krakatoa, o Vesúvio, o Katrina e o Haiti.  Muito menos a coletânea do Guilherme Arantes com seu sucesso “Planeta Água”... Please... É a mesma coisa que, no avião, passarem filme de acidente aéreo...

Brasileiro é sacana mesmo. Terça, vi uma matéria na TV, onde a gostosa repórter, constrangida, pedia para que o povo enviasse roupa íntima limpa! Pode? Tem gente mandando calcinhas e cuecas sujas... Se bem que, se o preço para receber uma calcinha suja da Mariana Ximenes for este, sou capaz de inundar minha casa com água de mangueira!

E o pedágio cobrando dos voluntários?

Meu amigo Luiz Fernando Godinho Santos, trabalha na Acnur, braço da ONU para refugiados. Ele já me mandou várias sudanesas e albanesas sem porvir: cama, mesa e banho!

Agora quero umas desabrigadas serranas, louras e de olhos azuis. Vou sacar todas as minhas economias do banco de esperma! Brincadeira! Ainda tenho uns Dorflex para a alma!

PS: Como diria o David Bizet, “Je crois entendre encore sa voix tendre et sonore. Oh, souvenir charmant. Folle ivresse, doux rêve!”.