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Walter Navarro
15/07/2010 - Um pierrot retrocesso meio bossa nova e rock'n roll
Walter Navarro
Nunca confie em polvos, lulas e moluscos de vida fácil. “Paulvo”, perdão, Paul o polvo, é bom de bola, mas pouco confiável.
Vocês comprariam uma namorada do Bruno usada pelo Macarrão, Bola e Coxinha? Vocês voariam com uma borboleta que usa escafandro? Vocês dariam um abraço num polvo inglês, que mora na Alemanha e torce pra Espanha que gosta de comer seus irmãos na paëlla?
Não gosto de bichos nem de gente com tentáculos e ventosas... Todo mole... Comilão... Aposto que ele também se venderia ao Ricardo Toupeira, digo, Teixeira...
Mesmo aposentado, Paul está com seus dias contados. Vi na TV que ele já tem 2,5 anos e polvos não passam de três... Ah! Se todas as lulas fossem iguais a você...
Por falar nisso, este mês anda estranho. Tá parecendo “um clip sem nexo”. Primeiro; Espanha e Holanda brigando pelos direitos do mar. Nos 20 anos sem Cazuza, dia 7, morreu o namorado exagerado dele, Ezequiel Neves. Dia 9, belisquei um uisquinho pros 30 sem Vinicius de Moraes.
Já nas trevas da Idade Média francesa, o pobre poeta Rutebeuf chorava: “O que aconteceu com meus amigos que eu tinha tão perto e tanto amei? Foram espalhados e levados pelo vento...”.
E o vento levou mais um amigão meu, dia 10: Francisco Milton Campos Horta (de risadas).
Mais um desaparecido na bruma remexendo um fox-trot; menos um no palco desta louca vida bandida.
59 anos de pura travessura.
Miltão era um grande fotógrafo das efêmeras fêmeas, coisas e festas populares de Minas.
Era tão tarado como eu pelas belas mulheres.
Colega de copo e de risadas. Aliás, a risada dele era quase um crime, escandalosa, caudalosa e indecente, mas, não chegava a ser pecado, uma pena!
Miltão era um bon vivant, mas sua vida era batatinha não. Sempre na batalha e em busca de (mais) reconhecimento.
Mesmo desanimado com o mercado profissional, suas mágoas não duravam muito tempo. Em minutos a gente trocava o tênis e lá vinha sua risada de terremoto, sem falar na voz peculiar, uma gozação a mais.
Nestes tempos, bom lembrar seu avô, o ex-governador Milton Campos, exemplo esquecido da política com P.
“Andava pra frente arrastando a tradição”; alegre e ótima companhia. Cúmplice de bares e festas. Sonhador com os pés no chão. Deve ser por isso que ele queria jogar pedras nas enfermeiras que, ciosas, não o deixavam nem colocar os pés no chão.
Fui visitá-lo pouco antes do período hospitalar. Estava mais angustiado que goleiro na hora do gol. Nem minhas besteiras o animaram. Dunga só piorou seu desânimo e a descrença na vida inteligente. Por isso foi cremado na hora da final entre Espanha e Holanda.
Adorava as belas artes, principalmente a boa música. Em seu velório, muito jazz e linda versão de Manhã de Carnaval.
Sempre tinha um CD nas mãos e, quando ainda podia, acompanhado de pecaminosos vinhos ou espumantes.
Pobre Miltão ao me contar que, um dia, tomou champagne pela manhã. Pegava no pé dele nas mínimas ressacas.
Por pouco não conseguiu seu desejado transplante, mas mesmo assim, desopilava nossos fígados como seu bom humor.
A penúltima brincadeira provou sua outra qualidade: era atleticano. Miltão queria uma tatuagem do Galo porque era “a única coisa a qual foi fiel na vida”.
Miltão não vai perder muita coisa: a Copa no Brasil, as eleições, muito menos o desfecho da tétrica e já chata história do nosso Jack O Estripador, o goleiro Bruno. Sou a favor de jogar Bruno e seus comparsas num canil cheio de rotweillers famintos. Desde que prescrevam Omeprazol para os pobres cães.
Perdemos nós.
Miltovisky perdeu as cervejas que tomamos por ele, falando dele e esperando que esteja melhor.
Vai perder também os filmes de sacanagem e as mulheres nuas que eu sempre mandava pro seu e-mail.
Vai perder exemplos explícitos da burrice humana que tanto nos divertia.
Miltão vai perder o final da novela.
Vai perder o bonde e as piadas diárias que o Brasil fabrica.
Vai perder o Galo campeão do mundo.
“Promessas malucas tão curtas quanto um sonho bom”.
Tudo banal como vodca, Fanta laranja e Gardenal.
Laranja como o uniforme da Holanda, aquele bando de garis do Boris Casoy praticando a luta livre.
Caro Miltão, mon cher ami que o vento levou. Você não foi fiel apenas ao Atlético, mas também aos amigos. Pode deixar que vou deixar ninguém falar mal de você. Só um pouquinho...
Não preciso do polvo Paul pra me dizer quem vai ganhar, quem perdeu e onde você está agora. Você continua fazendo parte do meu show.
PS: E mais um pouco de Rutebeuf para o po(l)vo: “a esperança do amanhã são minhas festas”.