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Um dolorido retrato em branco e preto na parede

Rodrigo Santoro. O ator, o astro, já filmou com as melhores atrizes do planeta; seu boneco é o brinquedo mais vendido no Japão. Ele consegue tudo, só não consegue entender o sentido da vida, o que querem as mulheres e o Clube Atlético Mineiro.

Anteontem fez 15 anos que Tom Jobim sumiu na bruma remexendo um fox-trot. Depois de amanhã faz uma semana do mais novo vexame em P&B do Galo a maltratar meu coração. 3x0 do Corinthians, meu Timão, em pleno e vazio Mineirão.

Torço para o Guarani de Campinas, onde cresci e vivi 14 anos. Tava lá, no Brinco de Ouro da Princesa do Oeste, quando o Bugre foi campeão brasileiro em 1978. Pra ter um time na capital, escolhi o Corinthians, quando ele colecionava os famosos 23 anos sem título. Tava lá, no Morumbi, no fim do jejum, final do Paulistão, contra a Ponte Preta, rival do Guarani, 1977.

No Rio, por Nelson Rodrigues e Chico Buarque, dei Fluminense. Em Minas, virei Galo depois do Atlético perder a final do Brasileirão pro São Paulo, também em 1977.

Que sina e situação as minhas, principalmente este ano. Guarani na segunda divisão, Fluminense quase indo pra lá, Corinthians muito mais ou menos e o Galo esta coisa...

É duro ser atleticano! Só entende quem padece no pelourinho, nos ferros, no tronco, na chibata das ilusões perdidas.

Por estas e outra (é proibido beber no Mineirão) parei de ir a estádio. Por todas e outras sempre achei que nossa torcida é a maior culpada dos seguidos fracassos. O Galo é aquela criança que apronta e, em vez de colocar de castigo, dar umas palmadas, a gente passa a mão na cabeça e manda brincar no quintal (Mineirão, Maracanã, Morumbi...).

Há quase 40 anos aconselho a torcida a boicotar os jogos do Galo pra ver se ele "prestatenção" e não faz mais isso, mas... A mais linda torcida do mundo não me dá ouvidos e lota o Grande Mineiro, com bandeiras e gritos de guerra, mimando ainda mais a criança que não tem jeito que dê jeito.

Amigo Marcelo, nos bares da vida, sempre aos gritos e lembrando glórias de um tempo em que ele nem tinha nascido; adora dizer que seu amor pelo Atlético é "incondicional". Ora bolas, amor incondicional é a maior fábrica de filhos psicopatas e chifres na testa que conheço.

Outro Toninho, com T de Tarado pelo Galo, há algumas semanas, dizia que já estava sentindo "o geladinho" da taça nas mãos... Aí perguntei o que ele sentiu com o nabo quentinho vindo por trás...

Mário? Que Mário? Mário Emílio jurou que dia 6 ia cantar: "Cocoricocó" com voz de Elis Regina cantando "Quaquaraquaquá quem riu fui eu"...

E o Dadá Maravilha, antes do jogo, disse que o Galo ia enfiar quatro no Flamengo porque o Tardelli é o melhor jogador do Brasil. Quaquaraquaquá...

Neste Natal desejo sinceramente ao Atlético; muito peru, frango e galinha ao molho de pinto pardo!

Mesmo porque não adianta chorar sobre o leite integral derramado.

Que coisa linda e triste torcer pro Galo enquanto ele canta pra galera: "Te perdôo por te trair".
Meu cunhado esquisitão, Henrique Enéias, em Barbacena, já escondeu suas 38 galináceas camisas atrás do terno azul que nunca usa.

Um Maurício paramentou-se, chamou a galera pra ver o jogo contra o Palmeiras e saímos todos Huck de raiva. Até gol que Pelé não fez o Porco fez. Como os gols olímpicos do Pet...

O saudoso Roberto Drummond, outro fanático, cunhou frase que entrou para os anais, como as bolas adversárias penetram o Atlético. "Se houver uma camisa branca e preta pendurada no varal durante uma tempestade, o atleticano torce contra o vento.".

Mas, posso nem transformar minhas camisas do Galo nas do Botafogo porque as cores do Fluminense são bem outras!

E ainda temos que agüentar piadas de todo o tipo de todos os adversários: cavalo paraguaio, lanterninha, flanelinha... Pobres pequenos atleticanos, motivo de troça dos coleguinhas na escola... Que tipo de torcedor vai ser quando crescer?

Daquele jeito, mais umas rodadas e o Galo seria rebaixado...

Como entender um time que começa maravilhosamente um campeonato e acaba feito um Rubinho Barrichello?

Fácil. Já conhecemos os passos dessa estrada e sabíamos que não ia dar em nada, os segredos do Galo sabemos de cor e salto alto.

Campeão de Gelo! Derrete-se como manteiga nos próprios e mesmos anais.

O Galo é apenas um clichê na parede que tem medo de ser feliz, mas como sói, como dói mais que dor de dente!

PS: O primeiro amor passou, o segundo campeonato passou, o terceiro amor passou, mas o coração continua. Coração Vagabundo, coração de mulher de malandro: Gaaaaaaaaalo!