Walter Navarro

Provavelmente eu não mereça, nem tenha o charme de Aécio, Serra e Dilma Bucéfalo, para ganhar capas de jornais e revistas. Assim encho o saco dos amigos.
A vítima foi o genial e imortal autor de "A Arte de Amolar o Pinto da Senhora sua Mãe", Eduardo Almeida Reis, mestre a quem supliquei as orelhas do meu primeiro livro. Como o Jabor fala aqui, há três semanas, o lançamento de "O Canalha Amoroso" é hoje, às 19h, no Café da Travessa, BH.
Todos convocados a ajudar Waltinho a colocar gasolina azul em seu Jaguar, como cantaria o menestrel Juca Chaves.
Vesti minha cara de Lula, perdão, de pau, e fiz a encomenda grega ao Eduardo que me deu lindo e paquidérmico texto.
Logo depois, a editora, Antonieta Cunha, avisa que o projeto gráfico não incluía orelhas!
Morri de vergonha e o Eduardo de...
Mas, guardei a pérola no baú...
Por falta de espaço, publicarei os melhores momentos. A íntegra vai por pro meu picante Face book!
Fala Eduardo!
"Brasileiro adora orelhas e a explicação é simples: os lóbulos são zonas erógenas. Mordiscar orelhinhas faz parte do relacionamento amoroso. Quando uma gata aumenta o diâmetro das argolas que usa como brincos, ainda que não o saiba está convidando o gato a penetrar nos círculos (...).
Só não dá para entender que brasileiros gostem das orelhas dos livros (...).
É grande a honra do escriba convidado para fazer a orelha do livro de um amigo: de graça, a exemplo das melhores honrarias. Prefácios e orelhas são remunerados a leite de pato. Nem se diga que leite de pato sem hífen tenha sido invenção dos idiotas do Acordo Ortográfico, porque a expressão já não era hifenada antes dele, mas leite de camelo e leite de onça, nomes de um drinque feito de cachaça e leite condensado, mereciam hífenes. O autor deste livro e o seu orelhador, em priscas eras, experimentamos o drinque, vulgo Alexander, que também pode levar licor de cacau e gim. Hoje nos dedicamos aos uísques e outros álcoois de homens sérios, voltados apenas para as altas coisas do espírito.
Com a sabedoria dos jornalistas formados pela Sorbonne, o doutor Walter Navarro não me deixou ler os originais (...).
Qual seria a explicação para o fato de o brasileiro gostar de livro com orelha? Talvez esteja na facilidade de marcar a página a que o leitor chegou, na hipótese de passar das duas primeiras. Outros há que se abeberam na orelha e passam a discorrer sobre o livro como se o tivessem lido (...).
Resumo que fico devendo ao leitor, porque, sem os originais, só vou ler ´O Canalha Amoroso´ depois de publicado. Desde já posso afirmar que a obra deve ser genial, não fosse da lavra do barbacenense burilado pela Sorbonne. Artista multifário, escritor, pintor, escultor, Waltinho é das coisas mais parecidas com um gênio surgidas na mídia nos últimos 100 anos. Como todo gênio, tem suas maluquices, a primeira das quais é escrever o que lhe dá na telha, sem freios e cerimônias de qualquer tipo.
Nessas andanças digitalizadas, é inevitável que alguns se abespinhem com os seus escritos, mesmo informados de que foram produzidos no bom sentido e com a melhor das intenções (...).
Acompanhando a canalhice amorosa do autor há 20 anos, posso afiançar que o livro é da melhor supimpitude. Mesmo que fale mal de mim, o que não é improvável, pois terá sido com as melhores intenções (...).
Nosso artista começa com ´O Canalha Amoroso´ uma lista de livros de sucesso, prejudicada apenas pelo fato de não frequentar panelinhas literárias. Voo solo no Brasil requer talento extraordinário, coisa que nunca faltou ao fundibulário barbacenense da pena, do pincel e das ferramentas usadas em seu trabalho escultórico (...).
Sou do tempo em que nos pagavam, na imprensa, pelo número de toques. Depois, o papel encareceu, o tempo escasseou e o poder de síntese passou a ser valorizado. Houve quem defendesse a tese de que escrever é cortar palavras, atribuída pelo Google a Carlos Drummond de Andrade, mineiro de Itabira que compartia com o autor de "O Canalha Amoroso" o gosto pelo chope e pela saia.
(...) O cronista barbacenense, lapidado na Sorbonne, não dispensa o chope e a saia, mas não faz versos com as pedras que encontra no meio do caminho, antes preferindo atirá-las nas moleiras das fraudes que pululam por aí.
(...) ´O Canalha Amoroso´, título perfeito para definir o autor, amoroso como ele só, dado a pequenas canalhices como esta de obrigar um amigo a escrever de graça (...)".
PS: Galináceos não têm orelhas, mas os santos as têm então: Gaaaaaaaaaaaaalo!