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26/01/2012 - Se eu soubesse eu nem queria saber


Walter Navarro


O amigo Géraud - Gerrô, de Geraldo – é o nosso segundo comunista mais rico. Só perde pro Niemeyer. Como todo bom comunista brasileiro compõe odes e modinhas, tem prosa agradável, risada fácil. Trabalhou anos com Itamar Franco, é marido da Beth, tem filhas gêmeas e lindas e toma lá sua cervejinha que ninguém é de ferro.

Sua meta é promover a cidade natal, Coronel Pacheco – na grande Barbacena – a General Pacheco. O companheiro camarada chega lá...

Géraud gosta de Dilma e mortadela.

Gerrô gosta de Lula e caviar.

Geraldo não acredita em duendes, Papai Noel e mensalão.

Mas todos querem uísque Ballantine’s do MartPlus na cesta básica do Bolsa Família

Não sei qual dos três me recomendou “A pele que habito”, o novo Almodóvar. Chatice das mais previsíveis. Até quando faz filme de macho o filme é gay; pois no final Antonio Banderas come uma mulher que, na verdade, era homem. Não confundir com a travesti Cleusa... Banderas, cirurgião plástico, transforma um cara numa gostosa e craws nela. Aí a ex-homem dá um tiro mortal nele e o filme acaba. Legal, né? Ah, se eu soubesse...

Rapaz culto e subido, leitor voraz; em outra cervejinha, no Bar do Pedro, Géraud, Gerrô ou Geraldo solfejava “Se eu soubesse”, nova pérola de Chico Buarque, famosa pelo refrão “liliri, ririri liliri, lalará” que quer dizer muita coisa, quando fica o dito e o redito por não dito. Refrão bem safadinho...

Resolvi descobrir o que o Chico saberia se soubesse.

Ah, se eu soubesse não andava na rua, nem vivia no mundo da lua, perigos não corria, não nadava, não cantava; não tinha amigos da onça e do tempo do onça; não bebia cerveja, uísque, caninha, nem gania; já não ria à toa como rico e bobo alegre; não ia fechar a vida, abrir o computador; não ia enfim cruzar contigo jamais. Ah, se eu soubesse que eu sabia que gosto de você chegar assim, arrancando páginas dentro de mim, desde o primeiro dia. Ah, se eu pudesse te diria na boa e de boa que não sou mais um dos tais, não vivo com a cabeça na nua, nem cantaria que eu te amo demais, casava com outra se fosse capaz. Seu soubesse que as mulheres bonitas são para os homens sem imaginação... Ah, se eu soubesse que eu sabia que você me apagaria filmes geniais, rebobinando séculos, meus velhos carnavais, minha melancolia. Mas acontece que eu saí por aí, e aí, liliri, ririri liliri, lalará. Seu soubesse eu nem olhava a lagoa Rodrigo de Freitas, a Pampulha, o lago Paranoá, o lago dos cisnes, o Titicaca, o Ypacaraí e o Mário. Que Mário? O Mário Lago. Seu eu soubesse que éramos dois carecas brigando por um pente...

Ah, se eu soubesse que sabia que você ia trazer seus instrumentos e invadir minha cabeça, onde um dia tocava uma orquestra pra companhia dançar. Seu eu soubesse que você era tradutora de regalos argentinos paraguaios no Rio, eu não ria, não ia mais à praia, de noite pra tomar cerveja argentina paraguaia de sandália havaiana. Se eu soubesse que você era japonesa de Pequim, pobre de mim, sonhar contigo jamais. Se eu soubesse que eu sabia que ia acontecer você um dia e claro que já não me valeria nada tudo o que eu sabia um dia. Se soubesse que outra noite é igual à outra, que outro sono é como se eu sonhasse o mesmo sonho de valsa. Que de outro fumo, a cinza é a mesma, que outra ostra tem o mesmo mexilhão. Se seu soubesse que morderia outra fruta com o mesmo sumo, eu andaria pela mesma casa com outro prumo. Ah seu eu pudesse não caía na tua, na tua conversa mole outra vez, não dava mole à tua pessoa. Se eu soubesse de modo impessoal que em tempo diferente o dia é estranhamente igual, seis por meia dúzia. Se eu soubesse, te abandonava prostrada aos meus pés, atrás da porta; fugia nos braços de outra, mas acontece que eu sorri para ti e saí por aí, e aí, liliri, ririri liliri, lalará.Outros olhos no teu rosto, vou falar teu nome e já teu nome é outro, outra bruma, outra Bruna, outra surfistinha na manhã de junho, outono, outro outubro, além.

Ah, se eu soubesse que você abrafolava, conxambrava e fazia chumbregâncias por aí, e aí, liliri, ririri liliri, lalará... Se eu soubesse que o passado da moça é tão que pode até machucar... Fazia uma canção desnaturada, quebrava sua boneca, raspava seus cabelos, ia te exibindo pelos botequins e, no chão que engatinhaste, salpicaria mil cacos de vidro, pra sujar teu nome e rasgar tua perna. Mas...

PS: E Gerrô me repassô: "Ana Carolina é aquela moça que foi estuprada no BBB. Ficou grávida de quadrigêmeos e voltou do Canadá naquele navio que afundou na Itália."