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19/01/2012 - Bartô! Pô meu! Você morreu e nem me convidou


Patrick Arley

 
Os deuses devem estar loucos ou bêbados. Ora inflam, ora esmagam meu coração vagabundo. Continuam matando meus amigos. Virou brincadeira. Não aguento mais escrever sobre “Manuels que vão pros céus”. Dia 16, sem nada melhor pra fazer os deuses canalhas, velhos e cachaceiros fuzilaram meu amigo Bartolomeu Campos de Queirós. Aí pergunto: quem, em sã ou insana consciência mata um passarinho? Quem mata o perfil de um cidadão comum que gosta de acerola, abacate e mexerica?

Juro. Toda vez que via Bartolomeu dava vontade de dar-lhe alpiste na mão.

Bartô foi velado na Academia Mineira de Letras, enterrado no cemitério Parque da Colina. Deve ser ótimo ser enterrado lá porque sabem o que o Cebolinha disse pra Mônica quando viu os elefantes atravessando a colina? “Olha, Mônica, os elefantes estão atravessando a colina...”. Acho que Cebolinha fuma maconha.

Como dizia o Fernando Sabino, passarinho, mulher e livro a gente não deve emprestar a ninguém.

Quem comeu meu Bartolomeu que estava aqui?

Com que direito mexem no meu único Bartolomeu que tinha nome de santo e de bandeirante?

Logo ele que tinha nada de santo ou de bandeirante! Quer dizer, de bandeirante até tinha, era um desbravador da língua.

Um dia me convidou pra ir ao Equador com suas milhagens de sobra. Dancei. Quando você não faz na hora o que tem que fazer, bye-bye. Walter burro! Perdeu! Pede pra sair!

O que vou guardar de Bartô era seu sorriso de ave de pequeno porte (passarinho).

Nunca conheci pessoa mais elegante, educada e delicada que ele. Era o próprio Brasil quando país da delicadeza perdida.

Tinha um humor de guardar no baú de espantos.

Um dia me disse quase sem querer: “Walter, já viu coisa mais feia que foto e desfile de ex-combatente de guerra?”.

Bartô ganhou todos os prêmios literários possíveis e merecia mais. Escrevia como a gente respira à beira-mar. Mais sério, o que era raro, lamentou este governo que está aí, este governo que taxa e castiga até prêmios literários, me disse que o governo, em impostos, levava metade do que ele ganhava. Vai tomar naquele lugar, é ou não é?

Bartô morreu numa segunda-feira ensolarada sem sol porque às cinco da manhã e eu estava mais desmaiado que perdedor de MMA/UFC.

Bartô não merecia a (sobre) vida que levava muito menos a morte que teve.

Ele podia beber nem água! Eu ficava constrangido, com uma cerveja na mão, no Café da Travessa ao ver Bartô descer a rua Pernambuco a caminho da hemodiálise que fazia três vezes por semana. Em suas palavras, com um livro debaixo do braço - sua diversão e arte - lá ia ele para a tortura. E sem reclamar, sempre sorrindo, como sorriem e cantam os passarinhos engaiolados.

Sua grande amiga (irmã) Nely Rosa, vivia lhe oferecendo jantares, carinhos e colo. Numa destas noites memoráveis, vi Bartô passar uma linha de água nos lábios porque o único líquido que podia absorver era o da comida. Logo ele que adorava um vinho, um whisky, sempre com moderação porque não precisava de drogas para ser gênio.

E eu adorava quando ele me filava um cigarro. Tanto que, com ajuda de um João, consegui botar um em seu caixão.

Por falar nisso, detestei o trabalho de quem preparou seu cadáver: tiraram-lhe o sorriso, o bigode e o cavanhaque, suas marcas registradas. Mas a gravata de elefantes azuis era a cara dele.

E sabem a última vez que falou de mim? “O Walter precisa fazer um blog pra finalmente ganhar dinheiro”. O cara tava morrendo e se preocupando comigo.

E sabem o que ele escreveu pra mim, com letra miúda de passarinho; como dedicatória, em seu último livro, “Vermelho Amargo”? “Para o Walter, com minha vaidade de tê-lo como escritor e amigo”. Que honra!

E sabem o epitáfio que queria? “Morreu de incoerência”.

Sabem o que “o homem que tinha o coração cheio de domingo” me deu de aniversário, há anos, quando eu tinha namorada amiga dele? Duas garrafas de champagne francês, Veuve-Clicquot. Geralmente as pessoas dão apenas uma garrafa. Bartô deu duas e uma lição de elegância: “Waltinho, uma é para você beber, a outra pra você se divertir”.

Quem substitui um cara desses?

Antes de escrever tudo isso, voltei à Livraria Quixote, o segundo lar de Bartô, pra, em sua homenagem, tomar duas garrafas de champagne. Não tinha champagne, pedi um espumante. Tinha, mas acabou. Veio um vinho branco, vou voltar lá agora e tomar a segunda, mas, só vou beber; impossível me divertir.

PS: Todos estes que aí estão atravancando o meu caminho, eles passarão, eu passarinho! Mentira, Mário. Até passarinho passa; né Bartô?