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29/12/2011 - O garçom triste, a velhinha perdida e o bêbado equilibrista
Walter Navarro
Guardei este tema para a última crônica do ano. Aconteceu numa única tarde, no meio deste nada dourado dezembro.
Voltava ao escritório quando, à mesa do restaurante vazio, um garçom chorava copiosamente ao telefone. Ele era consolado por uma colega, em pé.
Não parecia briga entre namorados porque a garçonete estava ao lado, escutando tudo e isso a gente faz, de preferência, sem testemunhas, como um crime perfeito. Parecia mais uma notícia de morte.
É estranho ver garçom chorar. Geralmente eles é que nos veem chorar, como um Reginaldo Rossi: "Garçom! Aqui! Nessa mesa de bar, você já cansou de escutar centenas de casos de amor... Saiba que o meu grande amor hoje vai se casar. Mandou uma carta pra me avisar, deixou em pedaços meu coração... E pra matar a tristeza, só mesa de bar. Quero tomar todas, vou me embriagar. Se eu pegar no sono me deite no chão!... Garçom! Eu sei! Eu estou enchendo o saco, mas todo bebum fica chato, valente, e tem toda a razão...".
Grande Reginaldo!
Eu não ia lá perguntar por que o garçom chorava; né? Vamos combinar... Assim, peguei o elevador, mas, comigo entrou uma senhorinha pedindo ajuda para apertar seu botão, quer dizer, o andar onde ela queria descer. Ela agradeceu, disse que tinha sido muito difícil achar a rua, o prédio e agora o andar... Resumindo, estava mais perdida que calcinha em tiroteio e cego em suruba ou casa de swing jamaicana.
Um absurdo a família deixar uma velhinha sozinha, desamparada.
Histórias de elevadores rendem um livro. Por exemplo, gente que sai de casa pra peidar no elevador alheio... E tem canalha que ainda fala assim: "Não fui eu, quando entrei já estava com este cheiro...". Misericórdia! Jesus me chicoteia! E aqueles que ficam espremendo cravos e limpando o dedo no espelho? Merecem 69 chibatadas no lombo!
Agora, a coisa que mais detesto é ser parado no meio da subida por alguém que espera a porta abrir e pergunta na maior inocência: "Tá subindo?". Outro dia não aguentei, botei uma perna para fora apontei a placa externa e expliquei com um quilo de cinismo: "Tá vendo esta seta acesa e esta outra apagada? Pois é, quando a seta que aponta para cima está vermelha quer dizer que o elevador está subindo, quando é a outra, que ele está descendo. Simples assim, ninguém precisa de grandes estudos para descobrir isso". A vítima fez uma cara de Pedro Bó, puxei a perna, reapertei o botão e fui.
Tenho também vontade de repetir aquele ascensorista nervoso que vi numa comédia. O elevador estava no último andar e, mesmo assim, um casal de pacóvios pergunta: "Tá descendo?". E o ascensorista: "Sim, mas antes do térreo, vamos dar uma volta pelo quarteirão, tudo bem pra vocês?". Mundo animal!
Deixando garçom e velhinha no baú de espantos, trabalhei a tarde toda, vi uns sites e e-mails de sacanagem, sorvi mais uns cafezinhos mornos com água gelada e cigarro em brasa; falei umas asneiras para a plateia em delírio e tomei o elevador sem velhinhas, caronas mortais, perguntas inúteis, cravos e flatos, graças a Deus...
Aí, sempre no Café da Travessa, fui tomar uns querosenes, umas fantas com escorpião, um caldinho de esgoto, na companhia do amigo Marcelo Biancrime, melhor, Bianchini, que esperava sua Dulcineia, a estonteante Renata.
Tinha música ao vivo na praça com uma simpática, loura e grávida cantora! Ela soltava a voz e dizia que ia cantar até parir, vê se pode; quer dizer, ela disse que ia cantar até o último momento, salvo engano, hoje ou amanhã, deste nada platinado mês de dezembro.
Renata chegou e eu fiquei de vela. E a grávida cantando e encantando a patuleia. Me deu vontade de pedir "Agonia", com Oswaldo Montenegro, mas me contive em nome do cordeiro de Deus e Jesus.
De repente, chega um bêbedo completamente bêbado e, entusiasmado, começa a cantar e a dançar ao lado da cantora nada careca, mas em estado interessante. Um deleite! Um requinte! O cara estava de boa e a cantora o levava também numa boa, com humor. E ele dançava, cantava, batia palmas, elogiava, comentava e todo mundo ria. Jésus, o intrépido garçom que nunca chora, até tentou tirar o ébrio de lá, mas não conseguiu. Loucos e bêbados não devem ser (muito) contrariados.
O correligionário de Baco cansou de ser estrela por 15 minutos e escafedeu-se. Marcelo e Renata foram jantar no A Favorita e eu fiquei lá esperando a banda, o bonde ou Godot passarem em 2014.
PS: Desejo a todos um 2012 com menos puns no elevador, lágrimas, perdição e bebedeiras. Já seria pelo menos um pouco de equilíbrio, né?