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22/12/2011 - O universo de nós numa praça com casca de noz


Walter Navarro



Carlos Eduardo Ribeiro de Navarro é O Cara! Dileto primo que atende pela alcunha de Neném Velho. Leitor voraz; teve a insensatez de me emprestar um caviar de sua biblioteca: “Paris – Biografia de uma Cidade”, do inglês especialista em França, Colin Jones.

A citação de Edmondo De Amicis (1878) dá o tom do livro: “Nunca vemos Paris pela primeira vez; sempre a vemos de novo...”.

Jones vê, mostra e ensina Paris, como o Corcunda decifrava Notre Dame.

Ainda na introdução, temos “O” francês, Georges Pérec, em 1975, registrando o que acontecia numa só praça de Paris em 24h, durante três dias. Paris tem 670 praças e Pérec escolheu justamente a que eu mais frequentava, a Saint-Sulpice, não em 1975, mas muitos anos depois.

Numa pretensão e inveja sem fim, tentei repetir o feito, em Belo Horizonte, esta semana.

Quem não tem mais Paris caça com a praça – em obras – da Savassi, mais precisamente sozinho, numa das mesas de meu segundo lar, o Café da Travessa.

Chovia cântaros e granitos. Não era de se esperar muito movimento e eu, sem três dias, contentei-me com três horas.

Nosso objetivo era ver “o que acontece quando nada acontece além da passagem do tempo, das pessoas, dos carros e das nuvens”, no meu caso, carregadas.

Restringi-me às pessoas conhecidas...

A primeira pessoa que vi foi um dos ex-maridos de uma de minhas ex-namoradas. Pensei: eu não queria que ele fosse ex-marido, nem que ela fosse ex-namorada. Mas, não temos escolhas, só os mentirosos e talvez, as bailarinas... Ele não me cumprimentou ou não me reconheceu. Fez muito bem. Não pega bem a um cara engravatado, sério, pai de família, trabalhador; cumprimentar um elemento de cabelo desgrenhado, barba de três dias, bebendo cerveja long-neck no bico e no meio da tarde.

Depois veio o amigo de Barbacena, Valmir Leporacci ou Leporace... Ele é músico e cantor, mas o Brasil fez dele - com a mulher - dono “de duas lojinhas de roupa” num shopping popular da Savassi em chamas (obras). Em pé, Valmir reclamou do movimento que caiu devido aos trabalhos e à falta de estacionamento. Sorriu, disse outras coisas gentis e partiu.

A terceira pessoa (e desta vez bonita) que vi apressada, falando ao celular verde, foi a bailarina/dançarina, Thembi Rosa, filha de minha amiga, Nely Rosa.

Toda vez que tenho o prazer de rever Thembi, me vêm à mente doentia aquela letra do Chico Buarque para “Ciranda da Bailarina”: ... Confessando bem todo mundo faz pecado, logo assim que a missa termina. Todo mundo tem um primeiro namorado, só a bailarina que não tem; sujo atrás da orelha, bigode de groselha, calcinha um pouco velha ela não tem...

Continuava sozinho e (in)feliz com meu iPod e suas músicas francesas molhadas a Skol e defumadas em Free Box e Dunhill mentolado; quando chega outro amigo, Paulo Laënder. Paulo é show! Show de cultura; grande artista-plástico, pintor, escultor, arquiteto e agora joalheiro. Falou do estado deplorável da cultura no Brasil e principalmente em Minas, onde os ricos compram apartamento de R$ 4 milhões, tem duas BMW na garagem, mas na hora de decorar a casa; acham cara uma tela de reles R$ 8 mil, preferindo no lugar dela uma ampliação vagabunda de Picasso. Concordei com ele, continuamos a conversar até a chegada da jornalista Titita Motta, que também se sentou para um café desviando a conversa para coisas mais amenas como, por exemplo, as melhores maneiras de divulgar as lindas joias do mesmo Laënder.

Cheios de compromissos, Paulo e Titita me abandonaram e voltei às músicas mentoladas e cervejas geladas.

A chuva voltou, fiquei mais triste e mais feliz, assim como, de quando em vez, faz chuva e sol com casamento de espanhol ou sol e chuva com casamento de viúva. Adoro Fanta uva, mas continuei na Skol, à espera de um milagre.

No lugar do milagre ou do vinagre, aparece o dono do pedaço, Fábio Campos: amigo de fé, irmão, camarada de tantas jornadas e risadas. Pena que, mais apressado que uma bailarina de calcinha nova, apenas me acena e vai se estressar com outra coisa, alhures.

Provando que não sou vagabundo que fica no meio da tarde, bebendo e procurando conhecidos para escrever como um Pérec de quinta; resolvi voltar ao escritório para traçar outras linhas sempre tortas.

Quando estava saindo, chega a última personagem desta crônica, Nely Rosa e o círculo fechou-se.

PS: Desejo a todos, na noite de Natal, uma pessoa querida para ser beijada e abraçada. Quem não tiver, conte esta ao espelho; “quatro coisas que têm leite: um queijo e três vacas”. Sorry!