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Walter Navarro
15/12/2012 - Mas que chato sou eu que acho tudo isso um saco
Walter Navarro
Eu não quero ver ninguém cuspindo ódio, nem fumando ópio, pra sarar a dor. Eu não quero ver você chorar veneno de Baudelaire. Não quero beber o teu café pequeno, nem com açúcar ou adoçante. Eu não quero isso seja lá o que isso for. Eu não quero aquele, Eu não quero comida a quilo. Mas, vamos combinar né?
Não sei se é o fim do ano ou o fim de 2011, mas não aguento mais ano novo e 2012.
Domingo, enfim, assisti "A Fita Branca", de Michael Haneke; pauleira, tipo Lars Von Trier; dupla de fazer cortar os pulsos com cortador de unha sem corte.
É de tal crueldade e maldade que me veio um verso do Caetano. Os personagens principais são crianças, com olhinhos infantis, como os olhos de um bandido. E bota bandido nisso.
Mas era "só" um filme. A vida mais vivida que vem lá da televisão é bem pior.
Uma notícia, semana passada, rimou com o filme: menina de cinco anos é estuprada e morta pelo tio...
No filme, um menino quase morre ao ser açoitado. Aí, vem a Internet: Menina de 14 anos morre em Bangladesh ao receber 80 chibatadas. Foi punida por tribunal religioso... Porque cometeu "atos imorais": teria sido estuprada pelo primo...
O filme tem suicídio, incesto, incêndio criminoso, menino deficiente com olhos perfurados e até
uma menina que crucifica o passarinho do pai carrasco com uma tesoura...
"A Fita Branca" mereceu a Palma de Ouro em Cannes que, quando é anunciada, dá vontade de sacar meu revólver. E toda vez que ouço falar em consultoria de Palocci e Pimentel, saco meu talão de cheques.
Um iraniano levou outras 80 chibatadas por ter bebido. E aqui não aguento mais ouvir falar em Lei Seca e no "Brasil sem cigarro", do "Fantástico"; Zeca Camargo, Patrícia Poeta e Fátima Bernardes, novela, missa e gibi.
Não aguento mais ungüento e reforma ortográfica que, no meu computador à lenha tira o trema de "aguento" e deixa em "ungüento". Que saco!
Não suporto mais ler e ouvir sobre crise, Grécia, Portugal, Espanha, Merkel, Sarkozy.
Não posso nem sentir cheiro de futebol, Copa do Mundo, PAC, estádios, estradas, metrô,
aeroportos, Neymar e Messi.
Quero descobrir um lugar onde não se fala mais em ministros decadentes e cadentes de Dilma, maracutaias e escândalos gerais.
Não aguento mais ouvir falar em Lula e câncer; não quero mais ouvir sobre meus amigos doentes de câncer ou de outra merda.
Tô igual à vítima da Lígia: "Nunca sonhei com você. Nunca fui ao cinema. Não gosto de samba, não vou a Ipanema, não gosto de chuva, nem gosto de sol".
E também odeio neve, neblina, bruma... Já a Bruna Surfistinha e a Brahma... Mentira! Quero mais é que a Bruna surfe as espumas da Brahma e me deixe em paz. Inclusive aquela chata da Deborah Secco.
Não quero passar agosto esperando setembro. Muito menos dezembro porque todo ano é a mesma coisa: sem grana pra viajar e vendo o Brasil desmoronar com as águas de janeiro, fevereiro e março.
Quero esquecer os morros pacificados do Rio, traficantes presos por policiais bandidos, bêbado matando gente nas ruas e estradas, veado enrustido matando gay e batendo em mulher, trânsito que não anda, a bosta da BHTrans; gente chata, gente burra, mesquinha, falsa, mentirosa, desonesta; que prega dignidade, verdade e moralidade porque procura na rua o que não tem em casa. Cadê os loucos-beleza?
Papai Noel, Boas Festas e Próspero Ano Novo? Quero que o peru de Natal se afogue com o primeiro ganso que encontrar.
Ai de quem me falar em amigo invisível e perguntar onde vou passar o Réveillon... Acho isso uma grande piada e um tanto quanto perigosa. Confesso abestalhado que estou decepcionado.
Querem dividir o Pará em três? Podem explodi-lo em mil e com ele o Maranhão cheio de Sarney.
Tô cagando e andando se a Cristina Kirchner é a primeira mulher a ser reeleita na América Latrina. No mais, eu nunca quis tê-la ao meu lado num fim de semana com um chope gelado em Copacabana e depois andar pela praia até a porra daquele Leblon.
Quero que todo mundo vá ao jardim zoológico dar pipoca aos macacos, porque macaco, praia, carro, jornal, "Playboy" que não mostra xoxota, coleção de filmes da "Folha de S.Paulo" que nem vou abrir e tobogã. Acho tudo isso um saco.
Faço parte dessa estranha confraria do vermute, do conhaque e do traçado. Mas se passa pela rua algum amigo, em cuja porta a desgraça não bateu; grito que entre neste bar e beba comigo. Hoje quem paga sou eu!
PS: E querem saber de mais uma coisa? Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria. Apesar de tudo, jantei bem e fui ao teatro.