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17/11/2011 - A pele que eu habitava numa caixa de ódio
Walter Navarro
Passei o republicano feriado em Barbacena, com sete filmes de DVD e muito jornal na GloboNews, vendo a chatice da invasão da Rocinha anunciada. Até o Nem sabia! Já o Enem...
Fora o Nem, como no morro do Alemão, só pegaram gatos pingados: um Carlos Lupi foragido de Bangu 8, um Carlos Lupi acusado de roubo e finalmente outros Carlos Lupi traficantes. Pegaram também armas, grana, drogas e ONGs enterradas na mata.
Alguém explica por que uma Organização Não Governamental recebe tanto dinheiro governamental?
E o Disque Denúncia? Só funciona em favela. Há nove anos denuncio o Lula e o Bope nunca subiu os morros de Brasília. Deve ser porque lá não tem morro. Querem o Bope em Brasília?
Quem tá no inferno quer sorvete...
Mas passemos ao cinema do desconforto, onde reina o caos, o império dos sentidos e dos sonhos.
Semana passada, relendo a maravilhosa crônica de minha lavra, aqui em O TEMPO, dei com uma pérola ao lado da minha, na outra página: "Uma ode à dor de cotovelo - Arrigo Barnabé interpreta obra de Lupicínio Rodrigues no show "Caixa de Ódio...".
Lupicínio é ótimo, nome cheio de sibilantes... Caixa de ódio também é ótimo! A cara dele... Nosso gênio mais sui generis era um negão de bigodinho hollywoodiano, voz fina, anasalada e gaúcho como Gisele Bündchen. Aliás, se o saudoso FHC, no ano em que nasci, 1962, defendeu a tese "Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional", por que o Sul não pode ter gaúchos legítimos como Lupicínio, Ronaldinho Gaúcho, Gisele Bündchen e aquele gato do Tarso Genro? É o meu Brasil brasileiro!
A matéria do comparsa Daniel Barbosa, sobre Lupi, melhor, Lupicínio, começa assim: a dor de cotovelo, a raiva, a ironia, a angústia, o sarcasmo e outros sentimentos pouco ou nada lenitivos estão no cerne de "Caixa de Ódio".
Caixa de Ódio combina direitinho com o maior clássico de Lupi, perdão, Lupicínio, "Nervos de Aço", quando ele chora: "Você sabe o que é ter um amor, meu senhor e por ele quase morrer e depois encontrá-lo nos braços de um outro qualquer... Eu não sei se o que trago no peito é ciúme, despeito, amizade ou horror. Eu só sei é que quando a vejo me dá um desejo de morte ou de dor".
É de dar tiro nos pulsos, né?
Nos meus tempos de Unicamp, anos 80, Arrigo era o rei dos shows universitários otários, eu o achava muito chato, sem falar que ninguém merece chamar-se Barnabé, né? A não ser o Lupicínio, quer dizer o Lupi, Carlos Lupi, aquele que não ia sair nem à bala do Bope...
Arrego Barnabé é chato, mas mandou bem sobre Lupicínio: "Ele estava preocupado com a verdade e isso permanece porque as coisas que são verdadeiras ficam".
Dor de cotovelo, raiva, ironia, angústia, sarcasmo lembram outro texto genial, este da pena do mestre Eduardo Almeida Reis, em seu novo livro, "Seis Alqueires e Uma Galinha". Não, "Seis
Alqueires e Uma Vaca". Galinha, vaca, piranha, tudo igual...
Logo em seu preâmbulo ou antelóquio, Eduardo diz que a pior forma de divórcio (qualquer separação) é o desquite cordial. Desquites e divórcios devem terminar em bordoada e acusações mútuas ainda que não correspondam à verdade, tipo Corno! Rameira! Broxa! Vagabunda! E isso, com a histérica bipolar quebrando celular, computador, copos e garrafas no chão da casa.
Bordoada é ótimo, por isso Nelson Rodrigues dizia que toda mulher gosta de apanhar e só as neuróticas da Lei Maria da Penha reagem...
Rameira é ótimo... Meretriz "tamém é bão...". Vadia, vagaba, Messalina... Canalha, pau pequeno, cafajeste, machão, Jece Valadão... Flor do lodo, mulher de baixos costumes, boba, feia, fedorenta, cadeira, novembro etc.
O português ciumento vasculha a bolsa da mulher e vai contar pros amigos: "Minha mulher é tão burra que a bolsa dela tava cheia de camisinha e nem pau ela tem...".
Amigo meu fez a mesma coisa e achou, além de camisinhas, até par de algemas. Ela disse que as camisinhas eram pro irmão e as algemas pro Carlos Lupi... Ele riu e apelou pra Caetano Veloso: Demente, harpia, perua, piranha, sanguessuga, pirata, malandra, vampira, tarada, à-toa...
Imagino o Lupicínio discutindo e terminando a relação: E eu lhe agradeço por de mim ter se lembrado dentre tanto desgraçado que em sua vida passou. Homem que é homem faz qual o cedro que perfuma o machado que o derrubou. Mesmo sabendo que você, como um pentelho no sabonete, não merece as migalhas que caem da minha mesa.
PS: Como diria meu amigo Dieter Roos: Liberdade! Liberdade! Com a bagagem amarga da lembrança! Liberdade? É aquilo que você perde quando quer tê-la!