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Walter Navarro
27/10/2011 - Semáforo quase amarelo em preto e branco
Walter Navarro
Paulinho da Viola tem, entre outros, um clássico da MPB, “Sinal Fechado” (1974), também nas vozes de Chico Buarque e Elis Regina. Inclusive o disco do Chico, com o mesmo nome, tem várias composições alheias porque, de tanto ser censurado e obrigado a gravar um disco por ano, Chico ficou sem repertório tendo que pedir aos amigos. Na letra, um casal se reencontra num sinal fechado e tenta tirar o “atraso” com perguntas banais. Chico, com Bethânia, canta quase no tempo de um sinal fechado, muito bacana. Já Paulinho faz uma versão lenta. Em 1979/80 a de Paulinho embalou cena de amor no seriado “Malu Mulher”. Gracindo Jr. traçava a Regina Duarte com esta música de fundo; discreto, romântico, sensual.
Semana passada, num táxi, parado infinitamente no trânsito - o que é um pleonasmo – tive um flash, lembrei da música e percebi que, com sinal fechado ou aberto, dá pra cantar o repertório inteiro de Paulinho e Chico.
- Olá humana! Leve-me ao seu líder de governo. Como vai? E a família?
- Eu vou indo. E você, tudo bem?
- Tudo bem! Eu vou indo, correndo pegar meu lugar no futuro… E você?
- Tudo bem! Eu vou indo, em busca de um sono tranquilo… Com muito Rivotril, quem sabe?
- Cuidado com estes remédios... Misturar álcool então é um perigo... Olha o seu resfriado, não pegue sereno, não tome gelado, o gim é um veneno, não beba demais. Se guarde para mim, a ausência é um sofrimento.
- Tá indo pra onde? Vamos tomar um veneno? Um querosene?
- Você não tem jeito, na nossa idade é melhor pegar leve.
- Achei que tivesse mudado..
- Nem de bairro... Só estou mais bonita, dizem...
- Vamos?
- Melhor deixar pra outro dia...
- Pra outro sinal fechado...
- E se todos estiverem abertos? E se a gente pegar aquela coisa cada vez mais rara, uma onda verde, onde é que vamos parar?
- Num quebra-molas, numa esquina, num muro.
- Quanto tempo!
- Pois é, quanto tempo!
- 15 anos... 25, 45?
- Depende de qual desencontro tá falando...
- A última vez foi...
- Cantando aquela do Vinicius: “E se tiver um momento me escreva um carinho e mande o dinheiro pro apartamento porque o vencimento não é como eu: não pode esperar”.
- “O amor é uma agonia, vem de noite, vai de dia é uma alegria e de repente, uma vontade de chorar”.
- A gente era dramático, né?
- É; pior só um tango argentino, mas boas lembranças, apesar de tudo...
- Pior é que você não devolveu meus livros...
- O Neruda?
- É engraçadinha...
- Joguei fora, vendi, dei...
- Sério?
- Mentira, bobo, é só pra te provocar... Tá tudo comigo, numa caixa fechada, dentro do armário. Não joguei fora, mas também não me torturo... A fila andou...
- Então devolve agora...
- Vou procurar.
- E aquele vinho? Vamos ou não?
- Hoje não... Tô com pressa...
- Tem um encontro? Com o Mário do armário de quatro?
- Você emagreceu e não virou ponto de referência...
- Como assim?
- Ué, você dizia que “careca” é ponto de referência.
- Verdade... “Senta ali...”. “Onde?” “Do lado daquele careca...”.
- Trocou os óculos?
- E perdi o celular...
- Na nossa época não tinha celular.
- Vai chover... E o vinho?
- Me perdoe a pressa, é a alma dos nossos ócios!
- Qual, não tem de quê! Eu também só ando a cem!
- Assim?
- Não, a cem por hora...
- O radar vai te pegar
- E pelo jeito a Lei Seca também...
- Muitos pontos na carteira.
- Pegaram o Kadafi...
- A é?
- Num buraco, como o Saddam...
- Executaram o cara no meio da rua depois dele pedir clemência...
- Tá errado, ele devia ter sido preso e julgado...
- Difícil pedir e esperar civilidade depois de tanto sofrimento, a multidão é anônima, onde os fracos têm vez.
- Numa briga a gente fala palavras duras, num linchamento, tendo uma arma...
- Ele deveria ter sido julgado e condenado. Que papo-aranha!
- Quer ver minha coleção de fotos do Kadafi lá em casa?
- Quando é que você telefona? Precisamos nos ver por aí!
- Pra semana, prometo; talvez nos vejamos… Quem sabe?
- Quanto tempo!
- Pois é… Quanto tempo!
- A gente podia ir ao cinema...
- E depois beber um vinho...
- Tá mal intencionado...
- Pelado?
- Enganado...
- Engatado?
- Enlatado...
- Desnatado... Ce tá precisando é de tomar um leite...
- Condensado, de moça...
- Leite derramado... Tarado...
- Tanta coisa que eu tinha a dizer, mas eu sumi na poeira das ruas... Pelas vitrines...
- Eu também tenho algo a dizer, mas me foge à lembrança!
- Por favor, telefone! Eu preciso beber alguma coisa, rapidamente…
- Pra semana…
- O sinal…
- Eu procuro você…
- Vai abrir, vai abrir…
- Eu prometo, não esqueço…
- Por favor, não esqueça…
- Adeus!
- Adeus!
PS: Aí os dois foram assaltados e felizes para sempre.