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Walter Navarro
29/09/2011 - Minha incrível paixão e doentia atração pelo lixo
Walter Navarro
Recebi, por e-mail, um vídeo muito bacana sobre a coleta de lixo em Barcelona. Coleta subterrânea, através de túneis, como esgoto, água, luz; com "bocas" nas ruas e nos prédios. Em cinco anos toda a cidade estará servida, aposentando os problemas decorrentes do que a gente usa e joga fora: o fedor, a sujeira, a poluição sonora e visual dos caminhões de lixo. É coisa fácil, processo simples, como tudo que é inteligente.
Adoro lixo, sou alucinado por lixo, minha casa é um lixão só. Meus amigos dizem que qualquer dia pego uma doença. Tem gente que suspeita de ratos e baratas em todos os cantos; mas, tá provado, nem os bichos mais escrotos sobrevivem na minha insalubridade de todo e cada dia.
Sinto-me bem no meio da bagunça e da sujeira, provavelmente um reflexo de minha pantanosa alma penada. Cato tudo e não é a primeira vez que conto isso aqui mesmo. Gostaria de viver em Barcelona e gostaria ainda mais que esse sistema de coleta fosse instalado em Belo Horizonte. Porque por mais que o "Deusinho" aqui recolha as sobras dos outros, reciclando até mulher, não tenho espaço para guardar mais tralhas.
Mas, calma aí! Sou doido não, o lixo que pego nas ruas e em caçambas vira obras de arte que muita gente acha um lixo ou um luxo. Aqui mesmo nesta coluna, podem verificar, eu a ilustro com coisas que vou catando por aí, enfiando nos bolsos, botando na minha pasta que, sinceramente, pertencesse a outro, também já estaria no lixo e no limbo das ilusões perdidas.
Semana passada, no mesmo lugar, entre folhas e flores outonais, achei três coisas que ora reciclo aqui: uma propaganda de motel, um papelzinho dizendo que sou importante e uma embalagem de goma de mascar.
O motel ordena que os amantes se hospedem na melhor saída pra Brasília que realmente é um lugar de "phoder"... Entre descontos e horários especiais, o lupanar particular oferece TV LCD grandona, ar-condicionado, frigobar, café da manhã, internet banda larga, som MP3, restaurante 24h, estacionamento privativo, fácil acesso e preço justo. Olha, com tanta coisa assim, se eu for lá, preciso nem levar mulher, já é diversão suficiente. E se eu for entre 18h de domingo e 18h de sexta, ainda tenho mais descontos. Irresistível.
O papelzinho "me engana que eu gosto", dizendo "Você é Importante" - não confundir com "impotente" - como era de se esperar, é coisa de uma Igreja Batista; bem no estilo, "Jesus te ama, mas, eu não".
A embalagem da goma de mascar, "Happydent White", sem açúcar, promete refrescância com estilo.
Será que esse kit foi usado pela mesma pessoa? Será que consigo levar uma mulher pro motel dizendo que ela é importante e, ao sair de lá, depois da troca de fluidos, aplico uma goma de mascar nela pra ficar "happy" e perfumada?
Bom, depois, comprei um "lixo" bem brasileiro: dois livros num sebo, um real cada...
O primeiro é um guia Michelin da Alemanha Ocidental e Berlim (1986), claro, três antes da Queda do Muro da Bastilha. Um guia completamente inútil, visto que a cidade mudou muito e pra melhor. Estive lá duas vezes, entre 1993 e 1994, tenho certeza de que, se um dia eu voltar; vou reconhecer nada.
O outro livro, com a capa coberta com doirado papel, como Clóvis, o peixinho de Pinóquio; é na verdade, um caderno de atividades sobre História Moderna e Contemporânea, de José Jobson de A. Arruda... 2ª edição... Livro do professor... 1975... "Com a desintegração do feudalismo, surge um novo sistema que se chama...
...Capitalismo".
O capitalismo é o demônio dos hippies e dos despojados sinceros.
Em frente ao sebo, na livraria Mineiriana, após matar um pedaço de mim, aproveitei para adquirir a biografia de Serge Gainsbourg, "Um Punhado de Gitanes". Tinha, mas, acabou. Achei-o na Quixote, novinho em folha. Li o prefácio e adivinhem a primeira frase do primeiro capítulo:
"Serge Gainsbourg deve sua vida à sujeira". Sua mãe, imigrante, em Paris, 1927, foi fazer um aborto, mas, deparou-se com tanta sujeira - inclusive um feto numa bacia - que saiu de lá correndo. Desta experiência maravilhosa Serge escapou da bacia e nasceu.
Não faço abortos em meu apartamento, apenas pequenos assassinatos; pelo menos por enquanto. Mas, gostei de saber que a sujeira, a lama, o lixo, entre outras coisas nojentas, podem ser responsáveis, ainda que indiretamente, por alguma forma de beleza, tipo a arte do bom e velho Serge; como "Je t'aime, moi non plus".
PS: O problema é que certas pessoas e coisas não são recicláveis porque, uma vez Flamengo, sempre Flamengo.