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15/09/2011 - O jantar quente dos idiotas e o almoço frio dos espertos
Walter Navarro
Pode ser também o almoço nu, porque o negócio é levar vantagem, certo?
Livro de cabeceira e criado mudo são expressões hilárias. Tenho muitos livros e nenhuma cabeceira. Não tenho criado, muito menos mudo. Mas, um livro está sempre à mão: “Le dîner des cons”, peça de Francis Veber.
O livro de 1993 virou filme de sucesso na França. Na tradução brasileira é “O Jantar dos Malas” ou “de Palermas”. Na versão americana, “Um jantar para idiotas” (Dinner for Schmucks).
“Con”, em francês, pra mim, sempre significou mais “babaca” do que “chato”, embora uma qualidade esteja bem próxima à outra porque “só os idiotas são felizes”.
Livro, peça e filmes são muito engraçados. Têm nada de idiota. Nem de chato.
“Resumindo henrique cardoso”; toda quarta, o editor Pierre Brochant e seus amigos organizam um jantar onde cada um deve levar um bobo. Quem achar o mais espetacular (de classe mundial) vence. Na maldita noite, Brochant está extasiado. Está certo de ter encontrado a pérola mais rara: François Pignon, contador no ministério das Finanças e apaixonado construtor de miniaturas com milhares de palitos. O problema é que Brochant ignora que Pignon também é um mestre na arte de provocar catástrofes. Inocente, ingênuo, solícito, servil e “bem intencionado”, Pignon, em poucas horas leva a mulher de Brochant a cometer adultério (ou quase), assim como bota um fiscal dos impostos dentro da casa do rico sonegador. Durante e no fim das contas, quem era o idiota?
Tive vontade, com um bando de chacais, de promover jantar deste tipo, torcendo para que não me apareça um Pignon no meio do caminho...
Por favor, não aceitem um convite meu para jantar. Já vou avisando...
Um de meus amigos disse que vai convidar o chefe dele, um perfeito babaca, que se acha; rei do assédio moral e sexual. O engraçadinho passa o dia a contar as piadas mais sem graça, fazendo todo subalterno rir à força. O imbecil tem mania também
–
abusando do poder, do alto de seu tijolo – de falar pornografia com as funcionárias, durante e após o expediente. Forte candidato ao prêmio.
Outro amigo diz que vai levar a ex-mulher: “Ela é tão idiota, tão ciumenta, tão desequilibrada que, pra testar minha fidelidade, fez uma amiga dela me seduzir. Tive que acabar deitando na cama pra levar a fama. Fiquei com a gostosa e ela acabou sozinha, paquerando em bares e em sites de relacionamento para desesperadas solitárias”.
Desaconselhei-o. Primeiro, porque só vale levar idiotas desconhecidos, inéditos; no mais, vai que a insana use a faca pra cortar outro peru que não seja o do jantar... Remember Lorena Bobbitt...
Um terceiro canalha sugeriu um tipo fabuloso que já tem cara de vencedor. Aquele tipo de infeliz que só fala de televisão. Capaz de ficar horas e horas comentando novelas, Faustão, Hebe Camargo, Fantástico e BBB. Se também gostar de Axé, confesso já estar com medo...
Quanto a mim, pensei num tipo que não bebe, não fuma, não sai do celular e fica um dia inteiro contando vantagens, mostrando as fotos infindáveis de sua última viagem a Guarapari. Tem coisa pior que ver fotos de viagem alheia? E os comentários? E as mentiras? O cara que faz fotos de desconhecidas gostosas na praia; inventa nomes, histórias e diz que comeu todas. Não, este; nem eu aguento; preciso de uma coisa mais light, mais abstrata...
Todo fanático por alguma coisa é um chato de galochas. Apaixonado e corno pela ex; fanático por um time de futebol ou hóquei sobre o gelo; pelo hobby; pela profissão; por um assunto; uma ideia fixa; ideologia; partido político...
Conheço vários bípedes humanos apaixonados por eles mesmos, só falam deles e, quando você tenta escapar, te puxam pelo braço e continuam a ladainha, como se fossem a última bala Chita (original, as amarelinhas) do pacote. Normalmente salivam no canto da boca (aquela espuminha branca) e dominam a arte do tiro de perdigotos à curta distância. Quando bêbados ou doidões, então, não há cristão que aguente.
E aquelas figuras que te mandam mensagens de auto-ajuda, com flores, paisagens, melodias lânguidas; por e-mail ou no Facebook? É de fazer Deus perder a fé...
E aquelas que falam alto, sem parar, repetindo assuntos, num eterno monólogo?
Já sei, vou convidar o responsável pela BHTrans, não vai ter pra mais ninguém. O pacóvio deve passar os dias pensando em como atrapalhar mais o trânsito e a vida dos usuários de ônibus, principalmente os da linha 9105.
PS: Apelei, perdi; é covardia. Acho melhor me convidar para jantar sozinho...