Walter Navarro

Estou no Rio de Janeiro, logo, sou o cara mais corajoso do mundo. Vejam a foto que ilustra este texto... Fotografei vários bueiros na minha Rolleiflex da Sony - digitou-se a sua imensa ingratidão. E não foi qualquer bueiro não, só os fumegantes. Senti-me como os geólogos na boca dos vulcões para os ângulos mais prementes, borbulhantes e escaldantes. O problema é que, se na hora H, o vulcão explode, o infeliz pode levar uma tampa de bueiro nas fuças...
Estou no Rio, mas dia 2 estava em Belo Horizonte, mais exatamente no 19, Quai Bourbon, e pensei: "Il y a toujours quelque chose dabsent qui me tourmente" - uma coisa ou alguém ausente que me atormenta...
Atormentado de fome, esqueci-me da vida na padaria. Adoro misto-quente no café da manhã e, além de minha geladeira ser um eterno loteamento - só tem água e luz -, o misto tem de ser quente e de padaria, com queijo derretido na chapa e grudando no guardanapo.
Par Perfeito, Romeu & Julieta, Combinação Ideal, Abelardo & Heloisa, Almas Gêmeas, Tristão & Heloisa, Outra metade da laranja, Édipo & sua Mãe para o misto-quente? Um pingado, um Toddy quente ou até mesmo uma Coca gelada.
No caixa da padaria, fui atraído pela manchete do nosso irmão caçula, o jornal "Super Notícia", campeão de vendas no Brasil, onde eu gostaria muito de escrever outras coisas em outro estilo, como pastilhas de aniversário e domingos de futebol. O jornal gritava: "Bebi, bebi, bebi, agora é popstar - Empresário flagrado dirigindo embriagado por três vezes, e que ficou famoso por causa disso, virou parceiro da PM em blitz da Lei Seca na capital". Comprei o jornal, claro, para esperar o misto e pensei: Só mesmo no Brasil!
Na parte inferior da capa do jornal, propaganda de um livro e DVD: "Coleção Professor Pasquale Explica".
Professor Pasquale pode ser bamba em língua portuguesa, mas o que vale isso num país onde uma besta como Lula, depois de Coimbra, é doutor Honoris Causa na Sorbonne de Paris?
Quero ver o professor Pasquale explicar essa.
Quero ver o professor Pasquale explicar como um bêbado, preso três vezes dirigindo, uma delas de pijamas, vira parceiro da Polícia Militar... Explica Pasquale, Explica Freud!
Quero ver também o Pasquale explicar as outras manchetes do "Super": "Bebê perde mobilidade de membros após tomar vacina contra paralisia infantil".
Professor, explica fotos e notícias sobre nosso futebol: América volta a pontuar; Atlético quer reagir e Cruzeiro acha goleiro mais importante que o artilheiro... Tão Minas, sempre na defesa...
Professor "Qua-qua", explica o apelido do traficante "Quem-quem", que, caçado e foragido, deixa a polícia mineira desnorteada.
Pasquale, explica o pânico de avião que levou o cantor (sic) Marrone a cancelar shows e procurar tratamento. Bom, pelo menos, este reconhece que precisa de ajuda psicológica...
Aí, tem a eterna gostosa Christiane Torloni se explicando: "Antes só do que mal-acompanhada. Solteira aos 54 anos, atriz de Fina Estampa conta que quer distância de relacionamentos perigosos".
Olha aí, professor Pasquale, finalmente esta você não precisa explicar. Aposto que até você já passou por relacionamentos perigosos, não com a língua portuguesa, mas, talvez, com a francesa, que citei acima. Aliás, a frase em francês é da escultora Camille Claudel a seu amado algoz amoroso, o também genial escultor Auguste Rodin. "Mon Dieu de La France!". "My Dog!". Meu Deus, o que Camille passou na mão de Rodin nem as pedras que ele martelava, furava e quebrava conheceram. Vejam o filme com Isabelle Adjani e Gérard Depardieu. Conta tudo... Explica tudo... Que relacionamento mais perigoso! Dormindo com o inimigo.
Por falar nisso, pausa para ver o desfile de navios de guerra no mar de Copacabana, porque hoje é 7 de setembro. Já volto, se os bueiros, os alemães e seus canhões deixarem...
Pronto, uma hora depois, voltei. Adorei ficar a ver navios, mas preferi os helicópteros, mais livres e rápidos.
Bom, também, tô fugindo de gente perigosa, psicopata, vampira, canibal e autofágica... Tô fugindo de mim mesmo. E quem não tem Paris caça com o Rio, o melhor lugar para essa fuga estratégica à esquerda, fundos, horário comercial.
Além de enfrentar moinhos de vento e bueiros, com extrema coragem, tem meu lado Walter-ego trip: eu sou o cara mais gente fina que conheço. Eu me amo, eu me adoro, eu não consigo viver sem mim.
Independência ou sorte para todos e para o resto também.
PS: Esta crônica vai para os sublimes cariocas Dilenyx e Ademarzinho.