PNC
Navarro
Dolce Vita
Walter Navarro
PN na Encontro
PN na Season
Home
|
Colunas
|
Walter Navarro
01/09/2011 - Acho que vou sentir muita falta do Afeganistão
Walter Navarro
Você disse: eu escutava muito Veruca Salt, Frank Black, 10.000 Maniacs, Leonard Cohen, Yes, Led Zeppelin, Keith Richards, Biquíni Cavadão, Marina Lima com Martinho da Vila e System of a Down...
Eu pensei: que coisa mais “down”, preciso aplicá-la em música francesa: Serge Gainsbourg, Jacques Brël, Alain Bashung, Jean-Louis Aubert e principalmente Vincent Delerm pra ela ver o que é bom pra tosse... E que tosse!
Você disse: Eduardo.
Eu pensei: Eduardo e Mônica.
Você disse: está provado que filosofar só é possível em alemão.
Eu pensei: prefiro minhas aulinhas de inglês.
Você disse: cadê minha moto?
Eu pensei: tá ao lado do meu camelo.
Você disse: eu gostaria de ir ao Rio de Janeiro, Londres, Havana ou Nova York com você.
Eu pensei: antes preciso arrumar minha casa, lavar chão, passar rodo, escovão, água sanitária ou então chamar a Dilma pra fazer uma faxina...
Você disse: preciso aprender mandarim, renovar minha carteira de motorista, pagar o IPVA do ano passado antes que chegue o próximo e consertar a porta do carro.
Eu pensei: melhor andar a pé porque ônibus é um saco e táxi está em extinção.
Você disse: quero fumar unzinho e ouvir Coltrane.
Eu pensei: para esta minha melancolia banal, nada melhor que Gardel, vodca, Fanta laranja e Gardenal.
Você disse: o capitalismo é uma bosta, adoro Marx, um carrão preto e uma calça Armani rasgada.
Eu pensei: liberdade é uma calça azul e desbotada, manchada de tinta vermelha e um tênis furado pra molhar as meias na chuva.
Você disse: este retrato tem algo de balthusiano... Algo de pedofilia.
Eu pensei: preciso levá-la ao Museu D’Orsay de novo ou ao Louvre e Rodin pela primeira vez; pra ela ver o que é bom para espirro. E bota espirro nisso.
Você disse: vamos tomar sol hoje à tarde, na piscina da minha irmã...
Eu pensei: intelectual não vai à praia, intelectual bebe porque é preciso ter mãos pálidas.
Você disse: urso polar
Eu pensei: ursa bipolar
Você disse "potato"
Eu pensei: "patattah"
Você disse: "tomato"
Eu pensei: "creole tomatah".
Você disse: vamos pra boate
Eu pensei: prefiro agulhas nos olhos ou o pau no liquidificador, mas, se eu não for; por trás de um homem triste há sempre uma mulher feliz e atrás dessa mulher mil homens sempre tão gentis.
Você disse: eu passeio de carro toda noite e ainda paro nos quebra-molas.
Eu pensei: a gasolina podia subir...
Você disse: eu gosto de História com H
Eu pensei: eu sou Homem com H e com H sou muito Homem.
Você disse: tenho uma lista de cores e nomes de meninos e meninas...
Eu pensei: merda; esqueci de comprar a pizza e a cerveja no supermercado.
Você disse: preciso ver o mar, pular onda e andar de barco
Eu pensei: nunca fui ao cinema. Não gosto de samba. Não vou a Ipanema. Não gosto de chuva. Nem gosto de sol.
Você disse: quem não gosta de rock, bom sujeito não é.
Eu pensei: sujeito oculto, amar verbo intransitivo.
Você disse: eu te amo.
Eu pensei: vou guardar teu segredo e aposto que diz isso para todos.
Você disse: canalha
Eu pensei: mas, amoroso.
Você disse: eu estudava Georges Duby dia 7 de outubro de 1919 e no segundo ano da faculdade, Hervé Guibert.
Eu pensei: Na próxima vez, em Paris, é preciso flanar na livraria Gibert Joseph...
Você disse: meu batom acabou.
Eu pensei: preciso limpar o espelho do banheiro que tá igual ao bigode do Belchior...
Você disse: aquele quadro ali não está bom, falta harmonia.
Eu pensei: preciso recolher um cão que de hora em hora me arranca um pedaço ou amar uma mulher difícil, sem coração, ofício e orifício.
Você disse: quero martelo e pregos.
Eu pensei: pode me quebrar, mas, eu não quebro não, porque sou macio, viu?
Você disse: É preciso salvar o país, é preciso crer em Deus, é preciso pagar as dívidas, é preciso comprar um rádio, é preciso esquecer fulana.
Eu pensei: É preciso viver com os homens, é preciso não assassiná-los.
Você disse: nem assaz alhures e antanho, um menino me fez chorar.
Eu pensei: é preciso não lhe apresentar meu sobrinho nem o Zezinho, Huguinho e Luizinho...
Você disse: palhaço.
Eu pensei: é, mais um no teu carnaval.
Você disse: eu quero é rosetar, curtir e compartilhar
Eu pensei: é preciso ler Freud, Nietzsche e Kant no original
Você disse: só mais uma coisinha, agora a última.
Eu pensei: eu já sabia. Eu também era fake.
Você disse: olha o tapete atrás da porta.
Eu pensei: melhor trocar a fechadura.
PS: A crônica de hoje é super falsa, fingida, mentirosa, dissimulada, baseada numa música idem, do Vincent Delerm e serve nem pra tomar um chopinho fora da cidade no Djalma ou no Boi Lourdes.