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04/08/2011 - Amar é: amar um orifício sem mulher

Walter Navarro

 
Sem artifício, sacrifício, benefício, desperdício e sem dentifrício. Colecionar ossos do ofício.

Ano passado, dei uma surra (de palavras) em Chico Buarque após sua declaração de amor à presidenta eleita em exercício, Erenice Temer da Silva, a popular e nada copular “Flanelinha”.

Sei que amar é nunca ter que pedir perdão, mas perdoei Chico. Seu novo CD é como a voz de Roy Orbinson: nem bom, nem ruim; apenas memorável.

Foi em 1998, com “As Cidades” ou em 2006, com “Carioca”? Ops! Lembrei! “Carioca”. Fui dos primeiros a comprar o CD em Belo Horizonte. Botei o bicho pra tocar no “repeat” e varei a madrugada ouvindo, pintando e bebendo. Mesmo assim não consegui decorar as letras.

Com este novo “Chico”, mesma coisa. As músicas são mais absorvíveis, em compensação, as letras... Tô igual que nem aquela outra música dele, “O Velho Francisco”: “Hoje não deram almoço, né? Acho que o moço até nem me lavou”. Será que já tomei banho e almocei hoje?

Desta vez, troquei a pintura e a bebida pela bebida e a faxina/arrumação de casa, com o auxílio carinhoso e sensual de minha linda namorada, Andrea. Amar é: encharcar de água sanitária e passar o rodo... Literalmente.

E foi tirando a poeira dos séculos que ouvi pela primeira vez, “Querido Diário”: “Hoje pensei amar uma mulher sem orifício”...

Confesso, Chico é foda. Amar uma mulher sem orifício... Foda e mentiroso. Pra que serve uma mulher sem orifício? Até as infláveis os tem... O saudoso Lincoln “Linquinho” Continentino, dizia que, se a mulher não tivesse orifício (b..eta), ele nem cumprimentava.

E agora vem o Chico, logo ele, pensar em namorar uma mulher sem buraco? Isso é porque ele já deve estar arrependido do voto em Erenice; cansado das estradas brasileiras, do PAC e do Ministério dos Transportes. Já cantava outro sábio, o menestrel Juca Chaves: “A mulher tem dois buracos, um do outro diferente; um que faz muita coisa e outro que faz muita gente”.

E o Chico querendo uma mulher asfaltada... Mas, insisto, é a melhor declaração de amor: amar uma mulher sem orifício... Se com três elas já falam pelos cotovelos, imaginem se tivessem só a boca.

No livro “Noites Antigas”, de Norman Mailer li que, no antigo Egito, os eunucos do harém eram escravos núbios; negros esguios e de ébano que, por maldade, ciúmes e insegurança do faraó, além de castrados, tinham língua e lábios cortados para que não usassem e abusassem das favoritas do harém. Como o faraó não dava conta de todas; a maioria vivia carente e elogiando: “estes núbios tem dedos maravilhosos...”.

Quem não tem cão caça com “bola-gato”. Dizem que no oriente, as prostitutas banguelas são as mais cotadas. Só na gengiva...

Este papo, oriundo da primeira música de “Chico”, sem querer, combinou com a última, em parceira com João Bosco: “Sinhá”. Pra mim, é a mais terrivelmente linda. No melhor ou pior estilo núbio ou Negrinho do Pastoreio, um escravo no Brasil Colonial é castigado com requintes de crueldade pelo senhor de “olhos tão azuis”, por ter visto, ao acaso, Sinhá banhando-se nua no açude.

Tão vendo? Se a Sinhá não tivesse orifício... E olha que o preto velho jurou não ter mais cobiça, nem enxergar bem... Então tá, velho safado!

“Chico” é quase temático. Começa por orifícios (furos) perfumados e termina no tronco, no pelourinho, furando olhos e talhando corpos.

Chico, pela primeira vez, namorando mulher muito mais jovem, além de apaixonado confessa-se ciumento e inseguro; um potencial corno. Quem diria... Fala em “última canção”; que “o tempo dele é curto e o dela sobra”, que não sabe “para que outra história de amor a essa hora”. Até mesmo quando ele enche a boca da namorada (Thais “Cospe ou”Gulin) com a letra de “Se eu soubesse”, Chico confessa certa “paumolência” na provecta idade: “ah, se eu soubesse não caia na tua conversa mole, outra vez não dava mole à tua pessoa”. Lindo verso para uma propaganda do Boston Medical Group: “Sexo é vida... Conheça nossos tratamentos especializados para Disfunção Erétil, Ejaculação Precoce e Impotência Sexual...”.

Já “Nina” é de chorar que nem viúva... Nada me tira da cabeça ou da testa que esta canção é sobre o famigerado Facebook, poço de lascívia, luxúria, libidinagem e muita sacanagem. Nina mora em Moscou, se mostra na “tela” e anseia conhecer Chico, em breve, no Rio. E ele se encharca de vodca, quando esta polka vergonha toca.

PS: Termino com “Barafunda”, sem saber se era Aurora, Aurélia, Ariela ou Andrea. Mas, Chico Buraco da Yolanda, se elas tiverem orifício pode mandar...