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14/07/2011 - Allons enfants de la Patrie le jour de gloire est arrivé


Walter Navarro

 
Sinceramente? Prefiro o dia do Beaujolais Nouveau ao dia da glória. Se ainda fosse o dia de comer a Maria da Glória...

Semana passada eu ia descer a lenha, a ripa e a borduna na BHTrans, mas... Morreram Itamar Franco e meu amigo Jorge Abalem.

A BHTrans merece surra de vara, principalmente por causa da linha de ônibus 9105 que (des)serve minha rua dos bobos, número zero. Já disse um sábio: se quiser falar do mundo, fale de seu quintal, de sua aldeia.

Sou obrigado a adiar a paulada de novo porque hoje é 14 de Julho, Queda da Bastilha, o 7 de setembro dos franceses... Ah! Se a BHTrans fosse do tempo da Revolução Francesa ia faltar guilhotina...

O curioso é que a festa do 14 de julho acontece um dia antes, na virada do 13 para 14, com gigantesco baile popular para os “sans culotte” (o Zé Povinho, o vulgo, a massa ignara) na Praça da Bastilha, centro de Paris. É uma bebedeira... Uma zona... Ninguém é de ninguém aos gritos de “cabaços rolarão”, perdão, “cabeças rolarão”... Muita música e vinho nas ruas adjacentes e na praça.

Numa dessas, meados dos anos 90, amiga minha, Dra. Célia, tomou todas, torceu o pé e acabamos no mesmo hospital onde morreu Lady Di. Célia não morreu porque era plebeia... Mesmo sendo turista ou talvez por causa disso, ela recebeu tratamento nota 10 e não pagou um centavo de franco. No Brasil, adoeceu; é o SUS ou a falência!

Passei vários 14 de Julho em Paris. O de 1989, bicentenário da Revolução Francesa; não posso contar aqui porque foi muito indecente e gostoso.

Mas, como eu ia dizendo antes de ser rudemente interrompido por minha prolixidade, o 14 de Julho propriamente dito é muito chato porque só tem o desfile militar na Champs-Elysées. Um calor de derreter catedrais, multidão suada e aflita, ressaca da véspera e jatos sobrevoando nossas cabeças espalhando rastros de fumaça vermelha, azul e branca.

Como sou fervoroso e fiel revolucionário, hoje serei obrigado a tomar uns vinhos franceses em homenagem a Robespierre, Danton, Louis XVI, Maria Antonieta e a mula sem cabeça.

Se não tiver pão, foda-se, como brioches.

Os franceses, como os romanos, são loucos! Guilhotinaram seus reis, mas, quando a Rainha Elizabeth visita Paris, o trânsito para e o povo faz fila pra ver a menarca, melhor, a monarca.

O túnel de l’Alma, onde a Princesa Diana quebrou o “cou” (pescoço, em francês), virou ponto turístico. E o Sarkozy, que tem a maior cara de Napoleão, toda noite deve brincar de invadir a Carla Bruni e dominar o mundo.
Em Paris, os reis moravam, remediadamente, no palácio onde hoje é o Museu do Louvre e passavam o verão em Versailles.

Versailles é um luxo só, dos palácios aos jardins. Impossível não imaginar as surubas que aqueles nobres franceses praticavam em frente aos espelhos, como nos motéis. Vide o filme “Maria Antonieta” da Sofia Coppola.

E suruba entre gente que não toma banho deve ser coisa das mais nojentas. Se o rei tomava banho uma vez por ano – porque a água o deixava vulnerável – imaginem os súditos... Se nos anos 50 as francesas trocavam de calcinha uma vez por semana, imaginem os homens...
No Brasil, onde teoricamente toma-se banho todos os dias – exceção feita à 50% da população que nem esgoto tem – deveríamos fazer uma Revolução Francesa a cada quatro anos.

Seria legal armar uma guilhotina na Praça dos Três Phoderes, em Brasília e passar o rodo nos palácios, ministérios, câmara dos deputados, Senado e lobistas. Este ex-ministro dos transportes, Nascimento, com cara de morte e seu filho, milionário da noite pro dia; seriam os primeiros a perder a cabeça.

O carrasco ia ter câimbra só de soltar a lâmina.

E o Palocci? Antes do pescoço a gente podia soltar a “língua plesa” dele. Em que país mesmo corta-se a mão dos ladrões em praça pública?

Revolução Francesa no Brasil só ia ter dois problemas. Poderia, como na França, gerar um bloco de napoleões retintos e pigmeus de boulevard. Sem falar, claro, nas guilhotinas sem licitação e superfaturadas...

E em vez de derrubar, certamente incluiriam a Bastilha no PAC.

Liberdade, Igualdade, Fraternidade e quá quá quá... Aqui só tem igualdade. Na corrupção.

Quanta besteira! No Brasil é assim. Não tem brioche, come pão, não tem pão, ganha Bolsa Família e fica todo mundo numa boa; sonhando com outros carnavais e a Copa do Mundo porque os ursos polares adoram o frio. Os bipolares às vezes sim, às vezes não.

PS: A coluna de hoje é dedica à amiga e aniversariante de hoje, Letícia Castro, dona de revolucionária beleza e gostosura.