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28/01/2010 - Com quantos cocóis e ovos se faz um bom Hamlet

Walter Navarro


OK. Reconheço. O Brasil nunca foi tão Brasil na história desse país. Definitivamente estamos blindados e ricos em meio à uma crise mundial.

Além de emprestar dinheiro ao FMI, damos milhões de dólares, reais e rúpias ao Haiti.

Terça-feira, deslizando célere e serelepe pela BR040, que liga duas de nossas maiores e mais pujantes metrópoles, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, quedei pasmo com os indícios de uma economia mais sólida que a cara de pau do José Roberto Arruda, aquele aprendiz de mensaleiro...

Nunca na escória desse país vi tanto caminhão transportando tantas riquezas. Transporte de cargas pesado e constante é sinônimo de bonança, de que continuamos a testemunhar, de camarote, o espetáculo do crescimento.

Que importa nossa dívida pública em trilhões?

O Brasil tomou Viagra na veia e em outros orifícios. Não para de crescer. Um colosso intumescido por natureza e cheio de varizes pulsando pelo progresso!

Ninguém segura este país que vai pra frente penetrando por trás a pasmaceira e o atraso! Encruzilhada da ordem e progresso és tu, meu Brasil brasileiro.

Cadê a saúva, pô?

Um país se faz com homens, livros, FMI, Haiti e principalmente caminhões e estradas que desbravam o hostil meio-ambiente; repleto de silvícolas ímpios, vagabundos, ignaros e pagãos. Sem esquecer a população ribeirinha. Carretas e asfalto esburacado aceleram o PAG - Programa de Aquecimento Global e, claro, o mercado funerário, cada vez mais vivo, fazendo amigos e influenciando pessoas.

E como diz o Carlos Minc, "se a Amazônia está acabando, phoda-se, eu não moro lá...".

Na mesma BR040, vi comboio e batedores transportando vagões de trem! Para onde não interessa; isso prova que o transporte ferroviário é coisa de gentinha de pouco estudo. Coisa da Europa atrasada que vive no tempo do onça e do bonde. Quem tem asfalto, ainda que selvagem, não precisa de trilhos e pode entregar o ferro aos chineses a preço de banana nanica.

Semana passada, constatei que o indício mais forte de nossa saudável economia dormia sob uma reles passarela: um mendigo, coisa cada vez mais rara, que, por mim, já estaria num museu, num circo para seres exóticos.

Esse brasileiro que desiste nunca repousava sobre o concreto cruel, certamente inebriado pelos poderes nutricionais de um ou vários litros de leite. Quase chorei!

Não precisava de cobertor, visto que moramos num país tropical e abençoado por Deus, sem tragédias naturais, alagamentos, deslizamentos, inundações, desmoronamentos, estas coisas que só acontecem no Haiti e no Peru.

Ao lado desse bravo excluído, percebi duas barrinhas de ferro e uma lata de sardinhas que com certeza ele usou, na véspera, como fogareiro para seu naco de filé mignon ao molho madeira. Chorei!

Agora vem o melhor da festa, o que mais me impressionou e definitivamente escancarou este novo Brasil.

Entre o cidadão e seus utensílios de alta culinária, um livro. Curioso como um felino, aproximei-me do opúsculo e não acreditei no que li: um exemplar puído, porém honesto, da tragédia Hamlet, de William Shakespeare, em francês! Em francês!

Alvíssaras! Neste novo tempo, mendigos praticam a siesta em babilônicos jardins, depois de esbaldarem-se com laticínios e carnes nobres, na companhia erudita de Shakespeare e seu show de traição, incesto, violência, paixão, vingança e corrupção.

Por isso me ufano deste país! Eu era feliz e não sabia. Se há algo de podre neste mundo, é no reino da Dinamarca!

Fiquei tentado a subtrair o Hamlet para levantar uns trocados com a Bárbara Heliodora, mas, me contive, afinal, o belo adormecido certamente gostaria de guardá-lo em sua biblioteca no primeiro bueiro à esquerda, fundos, horário comercial.

Parti sorumbático e fui trabalhar para construir um Brasil ainda melhor.

Dia seguinte - resisto a tudo, menos às tentações - voltei ao local do crime não realizado, para ver como ia esse hóspede da utopia. Jardineiros capinavam o logradouro. Nem sinal do leitor e de Shakespeare. Obviamente estava consultando suas aplicações no Valor Econômico.

Contudo, para meu gáudio, achei lá as barras de ferro, sem a lata de sardinhas e, pasmem, a capa de Hamlet. Pensei: Tá barato pra caramba! Ter ou não ter? Levei tudo.

Pensando bem, é mais provável que nosso culto mendigo tenha usado o livro como o urso daquela piada usou o coelhinho felpudo na floresta: como papel-higiênico...

PS: Os cocóis são cabeças de madeira pregados nos alcatrates e servem de reforço às aberturas das falcas. Qualquer Rhamphasto ariel sabe disso.