Walter Navarro

Há exatos 30 anos, em Campinas (SP), pouco antes de minha primeira viagem a Paris; minha mãe comprou no Carrefour e me deu um livro mágico, “Paris! Paris!”; texto de Irwin Shaw ilustrado por Ronald Searle. Visão romântica de dois americanos na Paris pós Segunda Guerra. Sempre guardei duas partes do livro: “Você começa numa mesa de café, porque tudo em Paris começa numa mesa de café. Você está esperando a garota que ama...”. É verdade, mas não é bem assim... Depende do fuso horário. Não restringiria Paris a uma mesa de café e às vezes a garota que ama já está com você. Ou não...
Há exatas três semanas, em Barbacena (MG), pouco antes de minha quarta viagem a Paris, minha mãe, sabendo que eu viajaria “acompanhado”, me deu a mequetrefe, “People Magazine” – nome deveras original de uma revista de agência de turismo local – da qual levei uma página ilustrada com meio Arco do Triunfo e o título: “Paris a dois – Uma viagem inesquecível”. É verdade, mas não é bem assim... Nada adianta estar em Paris, à meia-noite, em busca dos Picasso, Hemingway, Dali, Man Ray, Buñuel, Henry Miller ou Toulouse Lautrec perdidos; com a cabeça no horário de Brasília.
O texto não assinado, nem assaz mimado ou assassinado, diz coisas assim: “Você conseguiria imaginar uma viagem mais romântica do que ir a Paris com seu amor? É difícil, quase impossível”. É verdade, mas não é bem assim... Depende do fuso horário, quando meia-noite vira meio-dia...
“Paris é um lugar perfeito, feito para viver um romance glorioso (romance de Arco do triunfo n.d.r.), reacender o seu casamento ou encontrar o seu alguém na vida. A pergunta é: por onde começar?”. É verdade, mas não é bem assim... Depende do Sol da Meia-Noite... E de como vai terminar...
“Podemos começar esta viagem olhando Paris de cima. Para isso, temos três opções: Torre Eiffel, Arco do Triunfo ou a Catedral de Notre Dame”. É verdade, mas não é bem assim... Depende do horário... Se você deita e acorda tarde, pode pegar a Torre Eiffel lotada, subir apenas até o segundo andar e perder a vista do topo. O elevador do Arco do Triunfo pode estar em pane, você é obrigado a escalar os mil degraus e chegar lá no alto cego de cansaço. E a Notre Dame tem horários esdrúxulos para quem quer Paris à meia-noite...
Acrescento no mínimo mais três pontos por cima da “carnê secá”: O Arco de la Défense, o restaurante do Centro Georges Pompidou (Beaubourg) e os altos de Montmartre.
“Todos (os pontos) fornecem vistas deslumbrantes da cidade e um clima romântico para um abraço, alguns beijinhos e uma foto inigualável”. É verdade, mas não é bem assim: o dia e as cabeças podem estar nublados, mesmo na primavera que, dependendo do fuso horário, pode virar outono e até mesmo inverno.
“Paris está repleto de belos jardins e todos fazem um cenário incrivelmente romântico”. É verdade, mas não é bem assim... Tente visitar um jardim, carregando 20 kg de livros de arte, em cada mão, comprados, nas “opportunités” da livraria da esquina e verás o que é bom para a tosse de cigarro.
“Os jardins de Luxemburgo, em particular, compõem um ótimo local para casais e fica ao lado do deslumbrante Castelo de Luxemburgo”. É verdade, mas não é bem assim, além do fuso horário, na verdade, os jardins ficam atrás do palácio que, em outra verdade, é sede do Senado francês.
E depende dos casais... Por exemplo, o que acham da namorada que esquece estar passando o 12 de junho, Dia dos Namorados, em Paris? Só pode ser o confuso horário, né? O namorado não interessa, ela só se lembra dele no dia e horários brasileiros. Mesmo porque, que romantismo mais tolinho; Dia dos Namorados, em Paris, é 14 de fevereiro... E o meu nome é Dejair, facinho de confundir com João do Caminhão.
“Forget Paris”! Romântico mesmo deve ser o Festival Varilux de Cinema Francês a partir de amanhã aqui em Belo Horizonte, no Oi Futuro!
“Você já viu a cena em quase todo filme romântico em Paris: um casal se beija sobre uma ponte com vista para o rio Sena. Há uma razão para os cineastas usarem essa imagem: é maravilhosamente apaixonante”. É verdade, mas não é bem assim... Na hora do abraço e do beijo, a namorada confusa pode lembrar que o namorado já teve um caso com a presidenta Erenice Temer da Silva ou com a Ideli Salvatti e dar-lhe um soco na boca, antes de mandá-lo dormir no sofá...
PS: A segunda parte do livro, “Paris! Paris!”; que não esqueço é: “você termina numa mesa de café, porque tudo em Paris termina numa mesa de café”. É verdade.