Home | Colunas | Walter Navarro

09/06/2011 - É mais que pica, é pica com aço, é Picasso

Walter Navarro

 
Lembram daquela propaganda da Goodyear? “É mais que pneu, é pneu com aço, é pneu-aço”.  Pois é, Madri é mais que Picasso! Uma pica de uma cidade!

Bom, mas, no primeiro capítulo desta epopéia de carregar malas e delícias pela boa e velha Europa, falei de Lisboa e deixei a atroz dúvida: Barcelona ou Londres depois de Madri? Nenhuma das duas. Eu e Andrea, minha patroa, resolvemos vir direto pra Paris, onde estamos agora: ela no banho de imersão e eu aqui escrevendo estas mundanidades, ouvindo o CD do ótimo francês Vincent Delerme, sem tecla SAP, e bebericando um pouco de Bordeaux nacional que ninguém é de ferro.

Há uns 2011 anos, de férias em Barbacena, inventei, durante três semanas, um viagem a Cuba. Com velha enciclopédia, o novo Google e quilos de imaginação; escrevi três crônicas enganando todos os leitores, até mesmo os que conheciam Havana. Agora é verdade. Por isso, segurem aí minhas primeiras impressões sobre a Madri de Almodóvar e outros picas-grossas do engenho e arte.

Por que descartamos Barcelona e adiamos Londres? Porque achávamos que viajar de trem fosse mais simples. Grosso engano. Além de mais caro que avião, bestamente, os trens só levam 20 quilos de bagagem para cada vítima. Só eu tinha mais de 30... Esqueçam também as passagens baratinhas de avião pela internet. Quando mais se precisa dessa porra de tecnologia, ela te deixa na mão a ver navios, trens e aviões. Por isso, conselho de amigo, ainda que da onça: quem não quiser perder dois dias tentando viajar com as promoções da Internet, melhor planejar e pagar toda a viagem no Brasil.

Impressionante como é duro e pouco romântico ser aventureiro no século 21. Foi mais fácil Richard Burton e Blaise Cendrars descobrirem o Brasil “há dez mil anos atrás”; quando Raul Seixas nasceu com seu irmão gêmeo, Paulo Coelho.

Assim, depois de 400 euros para os cofres da Air France, estamos em Paris, mas, antes, como prometido, Madri!

Linda, monumental, limpa e gostosa com dois enormes peitões pra gente mamar até se saciar!  Cidade arborizada e limpa, grandes avenidas, bela arquitetura. É difícil elogiar muito Madri, estando em Paris pela “enésima” vez e confirmando que é a cidade mais bonita do mundo: além de peitões, bundão e suculenta “perseguida”, Paris ainda te diz, na orelha, “je t’aime”, com voz de Brigitte Bardot.

Gostei das preguiçosas “siestas” espanholas, menos quando precisei comprar ou conhecer alguma coisa. No mais, depois do bacalhau de Lisboa, vulgar paella noturna me provou a felicidade em forma de camarões, mexilhões e arroz.

Os vinhos, como em Lisboa, são ótimos e baratos (ao contrário de Paris que, mesmo assim, vale uma missa na Notre Dame...). Povo simpático, sem exageros, elegante. Enfim, uma cidade civilizada, tirante as touradas que, bem ou mal e pior fazem parte da cultura deste povo que sabe beber, comer e viver. Seria muito bom e perfeito morar no Rio de Janeiro ou Paris e passar, de quando em vez, uma semanita em Madri.

Claro que cometemos o incontornável, em Madri, o Museu do Prado, com seus Velasquez e Goya. Mas, “desolé”, pra quem conhece o Louvre, o Prado “é apenas um retrato na parede...”. Gostamos muito mais do Reina Sofia, onde brilham os mestres Picasso, Miró e contemporâneos; museu deveras agradável. Digam ao Palocci que abriram nova vaga pra múmias no Louvre...

Os bares de Madri também subiram uns 20 andares no meu conceito. O mercado de São Miguel e “sus tapas” são um regalo. Até cerveja russa tomamos e adoramos naquele local tipicamente madrileño. Já a movida madrileña vou botar na conta do Almodóvar! Ou tá escondida ou é na Albânia. Mentira! Aconselhados por nossos doces anfitriões, Isabela e Mário Melillo; fomos ao centro e sorvemos as famosas e boêmias ruas Cava Alta e Cava Baja. Muito legais, mas com prazo de validade “muy pequeño”. Ah! Uma das melhores tardes em Madri foi, depois de 30 anos, jogar futebol com o serelepe Lucca, 6, lindo rebento de Isabela e Mário.

Se o problema do Nordeste (brasileiro) é não ter piscina; o de Madri é não ter um Big Ben, um Coliseu, uma Estátua da Liberdade, uma Torre Eiffel, uma igrejinha da Pampulha, pra brincar de pão e circo e assustar turista.

Se vocês forem tarados por presunto, de todos os matizes, vão adorar. OK; perdemos as touradas de Madri (aos domingos, como o futebol e as pastilhas de aniversário) e a Barcelona de Tapiès, mas, como dizem o Gil e a Ângela Kaminski, o melhor lugar do mundo é aqui e agora.

PS: Semana que vem; “Bonjour chérie Paris”.